Maria João Worm


Acerca da exposição “de rosto voltado para o sol”
1 Junho 2009, 8:13 pm
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oratório, caixa em mdf, fundo com gravura e colagens sobre papel e pequena escultura ( neste caso, um burro) suspensa, 75x37,5x20 cm

oratório, caixa em mdf, fundo com gravura e colagens sobre papel e pequena escultura ( neste caso, um burro) suspensa, 75x37,5x20 cm

 

” terminadas todas as pequenas tarefas, adormeço de rosto voltado para o sol” é um excerto, traduzido por António Graça de Abreu, do último poema de Bai Juyi.   Foi uma exposição, feita na Galeria  Trema em 2001. Parti de poemas de dois poetas chineses do periodo Tang; Li Bai e Bai Juyi.  O tempo estava acertado pelo encontro com os poetas e apesar de por vezes ser  difícil porque tinha dúvidas por estar a ir buscar referências de uma cultura que me fazia sentir dividida. Por um lado a escrita atravessava o tempo, por outro lado, sabia que tinha de me guiar com cuidado, pois o que sei que me tocou é mais do que isso, teria de haver o respeito de evocar uma cultura da qual precisei de saber mais.  A Lua esteve sempre presente , quer em poemas, quer em reflexão.  Claro que se pode questionar tudo mas se um trabalho é feito por dentro, mesmo que se possa escavar em niveis mais profundos, o que se apresenta tem em si mais do que “eu”. Se há coisa que não se pode enganar é a consciência e a profundidade. Pode ser-se pouco hábil. Fica assim assente que me orgulho e morro do mesmo, uma capacidade incapacitante. Não há uma parte que vença nisto, o orgulho cai  e o lugar onde me encontro faz com que, do quase nada, se dignifique ser.  Fui levada por palavras, o género de arrebatamento que as paixões fazem.  Nas palavras encontrei paragens para nos sentarmos,  perder tempo e ganhar tempo. De facto este contar compassado que não nos dá descanso, diz-nos cada minuto. Em cada instante morrem as memórias, mamutes que viveram e que agora mortos formam a exacta passagem de cada segundo. Pesam,cadáver e história. O tempo em que fiz esta exposição embora tenha evocado a lua, vivia sob o sol. Um sol que na sua capacidade extrema dá a luz e queima. Mas nesta altura era sobretudo a luz que aquece e alumia, mesmo os pensamentos lunares.

Escrevi assim no catálogo: ” Sei que estive a trabalhar sobre uma tradução de poemas chineses e tentei cada vez que entrava na sala onde pinto, evocar a ideia longínqua de uma cultura que apenas senti ao de leve. Tentei encontar-me com Li Bai e Bai Juyi. Tive em conta o meu caminho que ainda percorro e os caminhos cumpridos destes dois poetas. Fui com eles a montanhas, bebi taças de vinho, deixei emocionar-me e deixei que o que fui fazendo se enchesse do espírito que eu queria tanto que ainda tivesse sido mais simples. Encontrei-os em tardes mais críticas e difíceis, em noites menos libertas e em pequenos conhecimentos e referências com que estruturei os porquês de algumas decisões plásticas. A poesia atravessa o tempo e eu quis aprender a brindar à vida com o mesmo amor que nos parece unir. Os meus limites tornaram-se meios de representação e registo. ” De rosto voltado para o sol” que é a frase traduzida do último poema de Bai Juyi, aplica-se à vida e à morte. A mesma paz essencial.

A Li Bai, amante de espaços abertos e senhor do seu dom livre da escrita, couberam as pinturas. A Bai Juyi, mandarim, homem estudioso e construtor dos seus jardins,couberam as gravuras de minúcia mais contida.”

Escolhi dois oratórios (para acompanharem este post), de entre os outros trabalhos . Parte da exposição está no site www.quartodejade.com , em galeria , a capa do catálogo tem uma série de gravuras em sequência; o importante nessa série é o processo. Partindo de um linóleo que vai sendo escavado e de cada vez sendo impresso até chegar ao não ter o que imprimir e que mesmo assim se revela numa imagem abstracta, aparentemente difusa, queimada. Assim podem ser as marcas que ficam, terminadas as pequenas tarefas.

oratório, caixa em mdf, fundo com gravuras e colagens sobre papel, e pequena escultura ( neste caso o macaco) de papel,suspensa, 75x37,5x20 cm

oratório, caixa em mdf, fundo com gravuras e colagens sobre papel, e pequena escultura ( neste caso o macaco) de papel,suspensa, 75x37,5x20 cm

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