Maria João Worm


Dervixes e Van Gogh
28 Março 2010, 1:10 am
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fotografia de Renato Abreu, Aula Magna 26 de Março de 2010

Fui ver um “espectáculo” na aula magna em que se pretendia dar a conhecer parte da cultura turca.  Ao principio senti o incómodo de quem lê cartas de amor que são para outro destinatário. Acontece-me por vezes sentir que o que existe noutras culturas pertence a essas culturas e ao ter acesso de um modo exterior estou a desvirtuar a sua parte essencial. Mas de facto todas as culturas são particulares porque nasceram do contrário do que se vive agora. Ou seja as culturas enformaram-se em ideias de lagos e não em rios de comunicação. Sempre os encontros se  fizeram por interesses, quero crer, mais equilibrados, entre comércio (trocas) e afinidades, mesmo que geográficas. Claro que as culturas são miscigenadas. Hoje em dia a ideia de aldeia global, embora movida pelo interesse de venda de produtos e sobrevivência da economia como a conhecemos, acaba por levar consigo nem sempre só sob a forma de produto vendável, parte da cultura de cada povo. O que tem acontecido com a arte dentro de cada país, acontece agora fora das linhas territoriais. A arte dessacralizou-se, e descontextualizou-se do seu papel original e passou a ser mais um produto de mercado.  Neste caso do espectáculo que assisti, ainda senti mais terrivelmente o poder de transformar tudo em produto. Ao assistir aos dervixes, na sua forma de aproximação ao divino, ao que pode ser visto como dança mas que se sabe que é mais do que gesto (é modo de chegar a Deus) fica-se tonto. Pela beleza do que chega aos sentidos dos que estão sentados numa plateia perante o que poderia ser visto como uma performance e pela quase certeza de que se é intruso, sem se o ser completamente. O que se questiona é a legitimidade da intrusão e a consciência da proximidade.

Por um lado arte e religião parecem reencontrarem-se na sua expressão que serve o conteúdo, por outro perdem-se as duas ao serem “vendidas sob a forma de espectáculo”. O que quero eu dizer com perdem-se? De facto elas essencialmente não se perdem, o que acontece é que cada um assiste em vez de participar, duvidando da possibilidade de integrar o que está  para além da sua própria experiência cultural. E isso serão tempos, gestos, tons diferentes? Essencialmente poderemos nós todos saber  que aspiramos ao mesmo sem lhe tocar. Lagos que neles reflectem o céu e sonham com um só caudal que não parece despropositado. Mas que o preço que se paga ao se unirem no mesmo caudal é perderem a superficie que reflecte o céu ao ganharem o movimento da direcção. Se Deus é verbo, ou anima, acção, pode-se perder o espelho do lago e prosseguir para um encontro. Eu não consigo estar certa desta afirmação.

Van Gogh, Ciprestes, Junho 1889

Van Gogh o individuo como um lago

Desenhar na água, ebru, básicamente sinónimo de papel marmoreado que desde o séc.XVI  se usou na Inglaterra, tendo  vindo o “ como fazer”  da Turquia que por sua vez o terá possivelmente ido buscar  à Pérsia. Neste sentido falamos de modo de fazer,  técnica, adaptada a diferentes meios.

 Neste caso diferentes receitas chegam a um resultado muito similar. A escrita do desenho na água utilizando diferentes componentes que se revelam quase idênticos no resultado. Ingredientes diferentes no Japão, Turquia e Pérsia  dão sob nomes diferentes, um mesmo tipo de resultado. Sem dúvida todos perto da  arte da escrita, a caligrafia. Controle, gesto, cores que seguem o propósito de se revelarem ao se conjugarem com outras e ao lhes ser dado um sentido e espaço de respiração. Mesmo hoje em dia, quem trabalha com as tintas sobre a água dá-lhes uma direcção, com filetes finos como agulhas ou pentes largos para formar padrões.

Van Gogh , para mim foi uma referência . Na vida há movimentos datados, gostos correctos para cada estação. Conheci o seu trabalho, quando já ficava mal sermos vulgares no gosto  e por outro lado ainda estavam por fazer leilões obscenos das suas obras. Quero falar dele porque faz um encontro entre arte e sagrado. Porque o seu trabalho modela a forma para encontrar a vida. Parte da natureza mas quer que a representação seja mais do que mimética, mais do que  aparência  “focar atenção numa árvore e não descansar até haver alguma vida nela”.

Ele não quis que a fotografia fosse uma referência para desenhar. Estar perante um determinado lugar, penso que seria estar dentro dele também. A fotografia seria,  imagem plana  “retrato unidimensional da aparência”. Assim ao participar do lugar, pode representar não o que se pode enquadrar e reter na superficie, mas sim o que nesse lugar vibra e tem vida.

Na sua pintura o gesto rodopia e tem direcção. Podemos, do mesmo modo, assistir e sentir que quase nos é dada a possibilidade de participar em toda  a coreografia do gesto, que apenas serve de veículo para a concretização final que é o movimento registado, duma vontade de verdade.

Esta associação entre os dervixes e  Van Gogh surgiu ocasionalmente, dentro do tempo  que todos vamos cumprindo. Assisti ao espectáculo dos dervixes e li num jornal que está a decorrer em Londres uma exposição sobre Van Gogh.

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