Maria João Worm


Redacção- O vento
22 Julho 2010, 5:25 pm
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Hoje está muito vento, o vento despenteia e dá-nos a clara sensação fisica do que está para a frente ou o que fica para trás porque nos estende na direcção do ventar. Às vezes é de esguelha, assim para os lados mas a fugir à esquadria sólida da rosa dos ventos. Também assobia e leva pó daqui para ali e deve ajudar o sempre em frente de quem tem a sorte de ir acertado na mesma direcção, mesmo que chegue antes do que seria um dia sem convicção definida. Sem dúvida que ao vir ao encontro nos toca, abana o interior, efusivo como a cauda de um cachorro, ora determinado,  ora entrecortado como os discursos que vamos tendo enquanto não arranjamos a consciência dura e limpa, como o osso  que imagino ser o silêncio. Mesmo que por breves instantes volto a ser gaiata; experiência de descer de bicicleta à velocidade que quase assusta como por vezes num baloiço aconteceu. O desafio do corpo todo centrado na barriga e o resto nos olhos que sentem as imagens vitreas e riscadas cheias de água que deforma e recria. Flutuar sem conseguir voar. Como no mar mas sem o abraço único e envolvente da água. Há sempre o que dizer quando estamos perdidos. De resto a importância do tempo e a consciência dele ou faz náufragos ou fala de remoinhos, e zumbe mas na cabeça que tonta se deixa embalar. À procura das palavras, atenta às cores e sabendo da impossibilidade de permanecer. Na vida existe sempre vento, por vezes correntes de ar e eu canso-me das minhas imagens que existem maiores do que o resto e são ancoras que atrasam a velocidade mas nunca me param.



marcar/diagnosticar o problema/tentar novamente
19 Julho 2010, 7:27 pm
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Há a quem eu diga com alguma gravidade que o facto de últimamente sentir que consigo ficar a contemplar um lugar sem nenhuma necessidade de agir me causa um certo desconforto e que me respondem que sim isso é terrível. Sempre tive desde criança a capacidade de ficar. Ficar é esquecer o corpo e fazer dele uma pantalha onde se reflete, a árvore com flores vermelhas ou a fina cor arroxeada que corre debaixo do cinzento de certas hastes de flores que imagino fazer gravuras que nunca fiz e que se não vier a fazer não é importante. Há os fazedores, com mais ou menos noção do sistema onde o mundo corre, com mais ou menos inteligência, seja lá o que isso for, há os que conseguem sobreviver dividindo o que fazem do que são, há os que mendigam. E todos eles subsistem de dinheiro. Todo o tempo que alguém perde a contemplar é uma paragem de actividade, um intervalo no rendimento.

Não há desculpa para a tristeza, podemos acarinhá-la,  dissecá-la, fugir dela sem a querer sentir. Mas ela é de facto da responsabilidade de cada um de nós. A minha tristeza diz-me respeito. A minha tristeza contribui para que exista tristeza. Mas ela existe. A minha tristeza não decorre da capacidade de contemplar, mas sim do facto de contemplar não ser feito para o tempo que hoje conta.  Tenho visto extrema beleza, olho em andamento porque vou sempre num contexto qualquer que tenho de cumprir. Como se andasse a toda a hora numa passadeira onde não se pode parar porque os carros existem. Atravessa-se no verde, paramos no vermelho e nem sequer há o desafio do amarelo, a consciência intermédia que ainda se permite aos carros, embora suspeite que é apenas para que eles rolem desenvoltamente e cheguem mais rápidamente aonde os destinos os delimitam.

Por vezes também sinto a urgência de me despachar, não caibo numa carta nem saberia exactamente para onde me enviar. Já pensei que poderia fundar uma frota de táxis para pessoas como eu que não sabem exactamente o destino mas que querem ir um pouco mais à frente no que desconhecem. Esta frota levaria as pessoas para outro lugar, e quem andasse em tais viagens diria apenas siga o meu sonho indecifrável. Poderia ser estabelecido um acordo, a bandeirada a doer na contagem dos Km. Por favor leve-me até 20€, 15€. Poderia haver um drive in de táxis que não vão a lugar nenhum que ficassem apenas parados num só lugar durante um tempo. A bandeirada poderia ser 1€.



Ver um pombo de cima é ter os olhos à altura do céu
17 Julho 2010, 5:55 pm
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Os pombos sentam-se à espera da morte. Escolhem um lugar sossegado longe da confusão.

Escondem as patas e ficam mais pequenos como se fossem embarcações ancoradas num mar sem agitação.

O corpo cinzento assiste ao velório que contém um único vôo.



prato principal
10 Julho 2010, 5:18 pm
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Hoje em dia previlegia-se a capacidade de discernir a qualificacão do sabor. O apuro de um bouquet feito a partir da conjugação de vários ingredientes.  Aliás o palato educa-se, dizem. Aprende-se a apreciar e consegue-se descrever. Existem criticos de gastronomia. Tenta-se discorrer em palavras a sensação do apuramento desenvolvido por certos palatos. Macio, aveludado, agreste, consistente. Um prato apesar dos seus elementos deverá resultar num todo equilibrado. Pintura sensorial que se ingere pela boca. Uma arte. Talvez faltem bebidas espirituais para contrapôr ou acrescentar às espirituosas. Para que se pudesse concertar a ponte entre o elitismo e o palato comum.

Lembro-me do filme Festa de Babette, o palato comum frente ao requinte das elaborações mais trabalhadas. Rápidamente a excelência dos sabores parece encontrar em todos os participantes que usufruem,  a garantia de uma degustação elevada. Sem dúvida o acordo de todos dá a certeza de se estar perante o que sem aprendizagem se revela a um tempo superior e ao mesmo tempo acessível. Encontro delicioso entre as elites e o senso comum, antes de se separarem os conhecimentos, antes das palavras eruditas e das referências.

Seria fantástico que socialmente nos pudessemos transfigurar metafóricamente em sopa. Uma sopa onde todos os ingredientes participassem como igualmente indispensáveis. Em que a cenoura não se desse ares de cenoura principal e soubesse que ficava aveludada pela presença da batata, e que o alho perdesse o hálito para revelar o sabor. E a finalidade fosse saborear e saciar. Podendo haver criticos de gastronomia, pois não se fala com a boca cheia, cozinheiros artistas que mais do que assinar a sopa quisessem saciar o desejo de viver, e um equilibrio entre os ingredientes fora e dentro da sopa.