Maria João Worm


marcar/diagnosticar o problema/tentar novamente
19 Julho 2010, 7:27 pm
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Há a quem eu diga com alguma gravidade que o facto de últimamente sentir que consigo ficar a contemplar um lugar sem nenhuma necessidade de agir me causa um certo desconforto e que me respondem que sim isso é terrível. Sempre tive desde criança a capacidade de ficar. Ficar é esquecer o corpo e fazer dele uma pantalha onde se reflete, a árvore com flores vermelhas ou a fina cor arroxeada que corre debaixo do cinzento de certas hastes de flores que imagino fazer gravuras que nunca fiz e que se não vier a fazer não é importante. Há os fazedores, com mais ou menos noção do sistema onde o mundo corre, com mais ou menos inteligência, seja lá o que isso for, há os que conseguem sobreviver dividindo o que fazem do que são, há os que mendigam. E todos eles subsistem de dinheiro. Todo o tempo que alguém perde a contemplar é uma paragem de actividade, um intervalo no rendimento.

Não há desculpa para a tristeza, podemos acarinhá-la,  dissecá-la, fugir dela sem a querer sentir. Mas ela é de facto da responsabilidade de cada um de nós. A minha tristeza diz-me respeito. A minha tristeza contribui para que exista tristeza. Mas ela existe. A minha tristeza não decorre da capacidade de contemplar, mas sim do facto de contemplar não ser feito para o tempo que hoje conta.  Tenho visto extrema beleza, olho em andamento porque vou sempre num contexto qualquer que tenho de cumprir. Como se andasse a toda a hora numa passadeira onde não se pode parar porque os carros existem. Atravessa-se no verde, paramos no vermelho e nem sequer há o desafio do amarelo, a consciência intermédia que ainda se permite aos carros, embora suspeite que é apenas para que eles rolem desenvoltamente e cheguem mais rápidamente aonde os destinos os delimitam.

Por vezes também sinto a urgência de me despachar, não caibo numa carta nem saberia exactamente para onde me enviar. Já pensei que poderia fundar uma frota de táxis para pessoas como eu que não sabem exactamente o destino mas que querem ir um pouco mais à frente no que desconhecem. Esta frota levaria as pessoas para outro lugar, e quem andasse em tais viagens diria apenas siga o meu sonho indecifrável. Poderia ser estabelecido um acordo, a bandeirada a doer na contagem dos Km. Por favor leve-me até 20€, 15€. Poderia haver um drive in de táxis que não vão a lugar nenhum que ficassem apenas parados num só lugar durante um tempo. A bandeirada poderia ser 1€.

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