Maria João Worm


violência assistida
22 Outubro 2010, 4:26 pm
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Anteontem assisti ao que me pareceu terrivelmente normal no processo de  nos irmos habituando a tudo e que nos tolda a visão. Existe perto de onde eu moro um lago. Um lago com peixes e que tem uns nenúfares que na época em que florescem,  nos fazem descansar os olhos e nos enlevam. O problema a que assisti tem que ver com a limpeza.  Lagos artificiais, em lugares públicos que querem que os lagos apresentem a água limpa como se se tratasse de uma piscina pública, obrigando a  que haja a rotina de os despejar e limpar de todo o lodo que se vai acumulando. A violência maior é que a dita limpeza implica o esvaziar das águas, o que faz com que os peixes que por ali habitam sejam recolhidos para baldes, ou irem literalmente pelo cano abaixo se têm o azar de serem pequenos.  No dia seguinte à limpeza, já com a transparência que as nossas consciências deveriam ter, a água estava cheia de cadáveres de peixes a boiar.

Mortos, como nos massacres que a humanidade pratica com frequência. E hoje finalmente reparei que andavam a pescar os corpos mortos que tanto ferem a sensibilidade que vive da ideia de limpeza. Espero que não pareça patético, aliás não me importo que pareça patético, pois para mim é muito claro. Se querem uma piscina de águas limpas, não ponham peixinhos dentro delas. Deixem os nenúfares, com toda a hipocrisia da pseudo comtemplação. Sim eles são de facto superiores ao olhar do arrumo higiénico. Mas os peixes, por favor, existem dentro destes lagos artificiais, ao que parece,  porque se substituiem fácilmente por outros parecidos e são o deleite das crianças e adultos que supostamente também são sensíveis aos nenúfares.

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Originais à venda de BD e ilustração de Diniz Conefrey
19 Outubro 2010, 11:14 pm
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Uma exposição é sempre um acontecimento único. É uma realização que se encena num determinado espaço, e por vezes, como neste caso,  apenas acontece porque deseja um encontro. Um convite para partilhar uma experiência que se dá a conhecer aberta a quem  quiser participar.

Os trabalhos expostos são originais que estão à venda, 11 pranchas de BD da história “Aquele que dá a vida” do livro  “Arquipélagos” , feito a partir de textos de Herberto Helder;  juntamente com 9 originais de ilustrações  que foram publicadas, quer em livro ou jornais.

A partir do convite para fazer um original para esta exposição,  foram feitos 33 giclée que se encontram também à venda,  numa série numerada e assinada pelo autor.

Galeria Mundo Fantasma-Porto 

Exposição “Memórias Topográficas” de Diniz Conefrey, 15 de Outubro a 14 de Novembro

Shopping Center Brasília, Av. da Boavista, 267

1º andar- Loja 509/510

telefone-(+351) 226o91460



Derreter
11 Outubro 2010, 9:46 pm
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Aspirador de imagens
6 Outubro 2010, 10:22 pm
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Alfarrabista
2 Outubro 2010, 7:19 pm
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Buçaco, 1843-Casa de repouso, Emanuella E. ( texto transcrito de um postal)

Minha querida burguesinha,

Talvez que não seja mesmo nada disto o que eu deveria não pensar.

O problema é esta consciência intermitente de se estar perante o paradoxo absurdo de amar a beleza das palavras e todo o ornamento sentimental que mente com os dentes todos e nos deixa abismados. Só queremos ir viver para a terra deste artificio. E no fundo é sempre um abismo escuro que devolve o eco como um poço. Mas se na superficie lhe chega a tocar a luz da lua, pois então lá vai por ali fora e chega ao céu,  na tentativa poética de chegar ao impossível. O que é que dá nas cabeças para serem tão tontas. Esvoaçam entre abismos que se fascinam e enquanto isso a vida passa tão simples. Tão séria quanto uma ramela pode ser e provém do lugar das lágrimas. Aparelho, função, análise, trabalho. E claro,  conjugação de verbos porque estar vivo requer a acção que em si já é. Esta inquietação que não descansa, ondula e vai para a forma, dá-lhe tiques e modulações, pinta ou gesticula sem tinta. Discorre em directo, e sabe que à arte só lá chega quem depura, rasura, desespera com classe. Que a arte é coisa que deriva, que conversa com o que existe,  com vagabundos de luxo, cigarros e tonterias. Esta estranha fome de ilusão não se sacia, distrai-se. Abisma-se no infinito do mundo e volta para casa. (sr doutor, escrevi  isto e sinto-me melhorzinha embora nada disto seja encantador, não envolve a toma de nada quimico, nem álcool, nem droga. Talvez apenas ressaca, ressaca de se estar absurdamente aburguesadamente vivo)