Maria João Worm


Na escrita também se dá a ler a vida que se perde enquanto é escrita
20 Dezembro 2010, 12:31 am
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Hoje acordei e no tecto comecei a desenhar circulos. Partes de circulos que se conjugavam com a parede. Na escola diriam que são exercícios mas é anterior;  apenas estou  com os olhos a desenhar. E as palavras pareciam aparecer. As tais que existiram e existem de cada vez que as convocamos.

Uma palavra sózinha estremece ou ressoa. E ao longo dos anos, as palavras que eu sei, habituaram-se a andar de braço dado. Juntaram-se amorosamente, por desejo de imaginar, pelo timbre selado do tom, ou quem sabe apenas para poderem pagar o arrendado do sonho e sobreviverem.

E se desejo poucas palavras, elas aparecem cada vez mais antigas e eu continuo a ir buscá-las, como se fossem palavras de aluguer, aderentes e com cola reposicionável. Ou então carimbos mágnificos (de magma original), feitos letra a letra até poder dizer uma que exista no catálogo oficial das existentes  com patente.

Dispersão, concentração, pontos máximos e no entretanto pendular está a escrita. Então porque é que se rasura, se a finalidade é ser. Dúbio ou claro de uma só corda, ser de tal modo harmonioso e plásticamente concreto que já é outra coisa. O corpo é feito de palavras sobrepostas, pontuação e hesitações que se atiram;  rasgos que vão atrás da luz e voltam desgastados,queimados, demasiado expostos.

Donde vem a necessidade de trabalhar um texto. Quanto tempo gasto a substituir palavras, a procurar onde declinar o verbo ou  onde fazer cair a virgula. Sem usar a repetição,  a menos que seja do dominio desejável para a forma final. Existem regras.

Não se escreve como se diz, nem se diz o que se pensa, mas escreve-se com palavras que não podem cruamente dizer com clareza o despropósito de entre tanto e nada.

Mas hoje a lua está linda.

Talvez que o mais certo seja ver sem traduzir. Quando vou na rua a andar e quando acordo e não tenho papel, nem caneta.

Não quero olhar para uma árvore e enquadrá-la,  pensar numa pintura ou num poema;  cegar-me a árvore no que ela é por si e a possibilidade de estarmos apenas a ser.

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Instalação
17 Dezembro 2010, 10:56 pm
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Este é um exemplo de uma instalação. O telhado ficou frágil e cedeu, precisava de um reforço e utilizou-se o que havia. Peças diferentes juntaram-se e conseguiram restabelecer a função da cobertura. Não houve senão como impulso para que se criasse este aglomerado de peças distintas,  a finalidade : manter a funcionabilidade de um telhado, fazer com que ele continuasse a manter a inclinação suficiente para que a água escorra na devida inclinação.

Sem ser intencional existe a possibilidade de olhar e ver nesta solução prática poesia, sentido de leituras. Penso que sim, tal e qual o que sinto no desfile das cores quando a roupa está a secar e as molas se confrontam e conjugam. E estou a falar de molas de plástico, daquelas às cores. Bem visto são intervenções mais ou menos conscientes. Estender a roupa e ser artista plástico. Os vizinhos podem aceder à exposição, contribuem com muitas molas ( vivo num rés do chão e elas caem naturalmente). Há anos que não compro molas e utilizo a paleta cedida pelos andares superiores que deixam cair diferentes cores em forma de molas.

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Project Fountain-1 poema traduzido
7 Dezembro 2010, 9:38 am
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Quatro negras nuvens

Quatro nuvens negras podem parecer o bastante para preencher o céu,

cada uma com a tensão do relâmpago e a boca fechada no momento anterior ao trovão.

As nuvens negras em formação militar voam à altitude certa para  taparem a luz.

E porque contêm o choro,  a  raiva de serem tão tristes e escuras,   ficam suspensas a matutar numa morte lenta em vez de trovoada.

Quatro nuvens pretas transportam-se aos ombros.

Nem está frio nem está calor, está dormente,  de dentro como de fora.

Cinza em pó que se cola a tudo, até à memória do sol .

Talvez que se lave na chuva, pode ser que se dilua na água e faça outras nuvens mais negras,

mas isso tem um tempo e nesse intervalo está a possibilidade de se vislumbrar o sol.

Assim só de relance mesmo que se sonhe com um chapão de luz.

Também fica bonita a luz a dançar entre as frestas do estore. Assim como se brincasse, num convite jovial, um teasing natural, e ninguém tem pressa de ter toda a luz de uma só vez.

Diz que cega ou encandeia, impossibilita o interesse.

Por isso puseram 4 nuvens negras no céu.

( poema de Florence U. , traduzido por Florêncio T.)



A capacidade de memorizar
2 Dezembro 2010, 4:53 pm
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O tempo foi-nos dado a contar. A repetição ciclica dos dias cria a ideia de abstracção. Um fundo onde noutro layer se anima a vida. O tempo só por si fora da vida é uma contagem com um ritmo que ao se repetir pode parecer constante. Mas o tempo é contado pelas vidas. Também aprendemos através de histórias que elas próprias precisam de protagonistas que as leiam. Todas as abstracções precisam de vida. A morte chega-nos. Existe certeza nisto. A morte decorre da vida. A morte tem precisão como o nascimento. É datada. O que tenho tem datas. Não sei todas as datas. Sei estranhamente do corpo, consigo desenhá—lo, agora consigo desenhar com detalhe. Partes integradas, formas que eu sou. Tenho os joanetes e os joelhos, uma casmurrice de ir só pelos “jotas”. Outro sentir é dar a mão. Orgulho-me até aos olhos que nos entram de ter dado a mão. Sim eu dei a mão. O suor e o frio a passar. Eu sei que demos a mão. Ele deu-me a mão, mesmo. A merda dos detalhes da colcha poderia interessar-nos aos dois. Nesse momento apenas os vi com o deleite fora do sitio. Parecia chantilly e na taça o meu avô. Que idade fantástica, médicos dignaram-se a remover o seu peso para se deslocarem ao lugar de encontro com a pré-morte. Pode-se ainda ser delicado e informal com a pré-morte, o corpo respira e tem dentro a tamanha incumensurabilidade do desconhecido que ainda pode ripostar. Nos mortos temos do mesmo mas sem resposta pronta. Quando era novo ìa para a praia e recortava formas em cartão que punha sobre o corpo. O sol queimava a vermelho e ficavam a branco os recortes sobre a carne. As nuvens tinham furos para chover, eu era apenas pequena e ele tinha feito trapézio e comia ameixas de uma vez só. Não percebi uma só palavra. Nesse dia ele dizia sons que eu não consegui perceber. Não lhe cheguei a dizer que o facto de o mar ter carneirinhos me fez ver carneiros na espuma. Que gostava sem limite de o ver a fazer ginástica. Ou a barba, sim, eu ficava a ver a espuma de barbas brancas para serem descascadas logo a seguir. Tinha uma brutalidade desconcertante que não ìa bem com a minha adolescência, mas agora desta idade que tenho não concordo . O livro que vimos da última vez que estivemos juntos, tinha imagens de castelos, a última página em branco. A última página que bela imagem, a melhor. Assim se tem a ideia de um apreciador de nuvens. Com ele acompanhei nuvens a mudar de forma. Ele muito capaz da tarefa eu a tentar ver e ser ao mesmo tempo. Aos velhos que o tempo incapacita fazem pontes com as crianças. Nada igual. O meu avô morreu velho, velho de idade, velho de primaveras e de invernos. Nada sei do que se soubesse não diria. Uma forma discreta cheia de mulheres , cabelos, desejo e barcos. Uma questão monárquica, bengaladas e amor. Amor que senti um dia. Um dia ele disse-me: sa bes eu sei e era sobre mim. Sempre fomos às festas doidas que inventaram para nos contar o tempo. Eu fui ele foi. Discretamente presentes. A cor vermelha de indignação. Ele levou-me ao colo. Subiu ladeiras comigo mesmo que fosse por gáudio da capacidade. Eu fui , eu estive. Havia verde e um céu azul que ele me quis convencer que era mais azul quando ele era novo. Apetece dizer palavrões. As lágrimas que choro saltam e eu sei que seria possivel rir disso. Não serei neta. Morreu quem foi o meu avô. E eu acho sinceramente que ninguém deveria ir numa caixa. Mesmo que tenha a tampa ao lado. O caso é que aquele corpo deitado debaixo da porcaria das rendas é o corpo que nós sabemos ainda reconhecer. O amor não vai numa caixa. Mesmo a preto e branco, seria sempre atravessado por uma cor. Nunca conseguimos fazer voar papagaios de papel, azul e vermelho, lindos mas sem voar. O verão estava com o tempo mudado mesmo antes da consciência da mudança climatérica. Muitos dias fui para a garagem com papéis e cores. O meu pai, o armário das ferramentas. Um mundo . E eu e o senhor que na boa vontade me deu as asas dos papagaios que nunca chegaram a voar. Falou-me de nós de marinheiros que nunca cheguei a aprender. Talvez por incapacidade. Mas de facto a velocidade nunca foi minha aliada. Só de vez em quando a pensar em nome maior do que sou. Agora, um café. Uma pausa. Uma ausência, amanhã todos aqui.