Maria João Worm


A capacidade de memorizar
2 Dezembro 2010, 4:53 pm
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O tempo foi-nos dado a contar. A repetição ciclica dos dias cria a ideia de abstracção. Um fundo onde noutro layer se anima a vida. O tempo só por si fora da vida é uma contagem com um ritmo que ao se repetir pode parecer constante. Mas o tempo é contado pelas vidas. Também aprendemos através de histórias que elas próprias precisam de protagonistas que as leiam. Todas as abstracções precisam de vida. A morte chega-nos. Existe certeza nisto. A morte decorre da vida. A morte tem precisão como o nascimento. É datada. O que tenho tem datas. Não sei todas as datas. Sei estranhamente do corpo, consigo desenhá—lo, agora consigo desenhar com detalhe. Partes integradas, formas que eu sou. Tenho os joanetes e os joelhos, uma casmurrice de ir só pelos “jotas”. Outro sentir é dar a mão. Orgulho-me até aos olhos que nos entram de ter dado a mão. Sim eu dei a mão. O suor e o frio a passar. Eu sei que demos a mão. Ele deu-me a mão, mesmo. A merda dos detalhes da colcha poderia interessar-nos aos dois. Nesse momento apenas os vi com o deleite fora do sitio. Parecia chantilly e na taça o meu avô. Que idade fantástica, médicos dignaram-se a remover o seu peso para se deslocarem ao lugar de encontro com a pré-morte. Pode-se ainda ser delicado e informal com a pré-morte, o corpo respira e tem dentro a tamanha incumensurabilidade do desconhecido que ainda pode ripostar. Nos mortos temos do mesmo mas sem resposta pronta. Quando era novo ìa para a praia e recortava formas em cartão que punha sobre o corpo. O sol queimava a vermelho e ficavam a branco os recortes sobre a carne. As nuvens tinham furos para chover, eu era apenas pequena e ele tinha feito trapézio e comia ameixas de uma vez só. Não percebi uma só palavra. Nesse dia ele dizia sons que eu não consegui perceber. Não lhe cheguei a dizer que o facto de o mar ter carneirinhos me fez ver carneiros na espuma. Que gostava sem limite de o ver a fazer ginástica. Ou a barba, sim, eu ficava a ver a espuma de barbas brancas para serem descascadas logo a seguir. Tinha uma brutalidade desconcertante que não ìa bem com a minha adolescência, mas agora desta idade que tenho não concordo . O livro que vimos da última vez que estivemos juntos, tinha imagens de castelos, a última página em branco. A última página que bela imagem, a melhor. Assim se tem a ideia de um apreciador de nuvens. Com ele acompanhei nuvens a mudar de forma. Ele muito capaz da tarefa eu a tentar ver e ser ao mesmo tempo. Aos velhos que o tempo incapacita fazem pontes com as crianças. Nada igual. O meu avô morreu velho, velho de idade, velho de primaveras e de invernos. Nada sei do que se soubesse não diria. Uma forma discreta cheia de mulheres , cabelos, desejo e barcos. Uma questão monárquica, bengaladas e amor. Amor que senti um dia. Um dia ele disse-me: sa bes eu sei e era sobre mim. Sempre fomos às festas doidas que inventaram para nos contar o tempo. Eu fui ele foi. Discretamente presentes. A cor vermelha de indignação. Ele levou-me ao colo. Subiu ladeiras comigo mesmo que fosse por gáudio da capacidade. Eu fui , eu estive. Havia verde e um céu azul que ele me quis convencer que era mais azul quando ele era novo. Apetece dizer palavrões. As lágrimas que choro saltam e eu sei que seria possivel rir disso. Não serei neta. Morreu quem foi o meu avô. E eu acho sinceramente que ninguém deveria ir numa caixa. Mesmo que tenha a tampa ao lado. O caso é que aquele corpo deitado debaixo da porcaria das rendas é o corpo que nós sabemos ainda reconhecer. O amor não vai numa caixa. Mesmo a preto e branco, seria sempre atravessado por uma cor. Nunca conseguimos fazer voar papagaios de papel, azul e vermelho, lindos mas sem voar. O verão estava com o tempo mudado mesmo antes da consciência da mudança climatérica. Muitos dias fui para a garagem com papéis e cores. O meu pai, o armário das ferramentas. Um mundo . E eu e o senhor que na boa vontade me deu as asas dos papagaios que nunca chegaram a voar. Falou-me de nós de marinheiros que nunca cheguei a aprender. Talvez por incapacidade. Mas de facto a velocidade nunca foi minha aliada. Só de vez em quando a pensar em nome maior do que sou. Agora, um café. Uma pausa. Uma ausência, amanhã todos aqui.

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