Maria João Worm


Azulejo
7 Janeiro 2013, 11:30 pm
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azulejo

Estranhava a cor dos azulejos.

Muitos eram lejos em vez de azul

e eram tácteis em vez de serem.

Sugavam-me e transpiravam um tom de som,

de confissões de cerâmica e lembrança de barro.

Vozes antigas, pessoas, tempo.

Obituário circunscrito.

Território quadrado e delimitado.

A travessa é a luz branca que sobressai e fica.

O mundo já sempre foi : diz a parede inteira

mas não é uma só voz

é um coro.

Em que se tiveres atenção, há em cada um uma voz

que geme amarelo poroso de terra e invenção santificada de azul.

(Os verdes,

imitam os verdes)

Nas paredes não se grita, nem sequer o que a tinta lhes escreve por cima.

Morremos sózinhos mas fazemos um padrão.

E depois perceber que não são pessoas que escrevem poemas de cabeça que vão salvar o mundo.

O som nas árvores de folha perene

está preso sem constrangimento.

Ficam os pássaros e os gatos ao sol

que oscilam no que consigo,

na sombra branca da roupa lavada.

Letra capitular

lembra a geografia vertical dum mapa.

Tinha pena,

verdadeira e sentida pena,

quando na escola

olhava o Portugal Continental

suspenso por um fio à parede.

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