Maria João Worm


Recordação avulsa de Lisboa
18 Maio 2014, 9:19 pm
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derrete

 

Houve em tempos, 2 séculos atrás, um muro chamado Muro do Derrete.

Que em 2 domingos consecutivos acontecia na feira das Mercês.

Quando não havia feira,  decerto nele poisariam pardais e dormitariam gatos.

Ou caracóis guiados, pela branda marcha da aventura,  lhe terão deixado o brilho passageiro do seu muco lunar cristalizado.

Geograficamente, entre eventuais musgos verdes e líquenes amarelados, carreiros de formigas reconheceram o terreno.

Uma ou outra lagartixa terá aproveitado um momento de introspecção, e decerto terão sido muitas as assinaturas em mijo.

Estamos portanto,  aparentemente,  a falar de um muro transponível de baixa compleição, aprazível e discreto não fora os dois domingos do calendário da feira.

Aí o muro tomava o lugar de assento para meninas em idade casadoira à espera de serem examinadas, namoradas e finalmente escolhidas, por rapazes imbuídos do mesmo propósito final.

Quero crer que nas Hortas,  à sombra do arvoredo, um homem que tocava realejo e uma rapariga que trocava frases soltas, se encontraram e foram juntos ver o Teatro Circo Price na rua do Salitre.

 

 

 

 



Demoiselle d’Avion
3 Maio 2014, 9:25 am
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par_coeur

 

Onde tu és eu morro. Assim como delicadamente sabemos sonhar.

Nunca é uma palavra demasiado grande mas usamo-la como tantas outras.

O que fazemos das palavras é usá-las.

Não sei se alguma vez me ensinei a digerir o tempo, a subsistir à capacidade de calendarizar.

Escrever pode entreter a dor mas eu não tenho uma ambição tão grande.

Se cultura é prazer em desconversar ou ligação umbilical do intelecto;

Não desfaz a condição de nados mortos como irmãos.

E se civilização se deixa definir na capacidade de encontrar beleza na dor.

Percebo que quem reza, impede assim, que nasça outro poema.

 

Adriane Dédeche, Pacotilha Desencantada, 1956 edições Trouvable