Maria João Worm


história
31 Outubro 2017, 12:14 am
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lugar

As palavras antes de se fixarem nos livros eram nómadas.

Ouvir e dizer eram as vezes de ler.

Estavam inscritas numa direcção e dois sentidos.

A memória interna apreendia a coincidência com a eterna.

O tempo, a consciência de estar vivo agora, fazia do corpo o instrumento aberto,

onde a música, transversal à existência, seguia perpétua,

na voz que é em cada ser.

Fixaram-se as palavras e a humanidade.

Para conforto,

construíram-se micro-mundos em quintais,

desviaram-se rios, cruzaram-se e desenraízaram-se  espécies,

violou-se a sabedoria.

E assim tornou-se mais claro que ela existia.

Mas ao violentá-la e ao fazer o corte de a aceitar tal como é,

ela que habitava o centro de cada ser, fugiu para o céu.

Mas seguiu-se cegamente o valor da delimitação,

pela posse da breve assinatura de uma vida.

Em vez de se procurar o alimento,

achou-se o direito de trazer para si,

o que convinha ao desejo do momento.

A Humanidade fez da Vida Una, a violência de se estilhaçar em indivíduos,

capazes de se matarem e matar, para adquirirem o poder do monólogo.

E assim escrevem-se livros,

à procura da coincidência que se perdeu.

E apenas ficou mais definido,

o espaço onde se deve enterrar os mortos.

 

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