Maria João Worm


Project Fountain-1 poema traduzido
7 Dezembro 2010, 9:38 am
Filed under: Project Fountain | Etiquetas: , ,

 

Quatro negras nuvens

Quatro nuvens negras podem parecer o bastante para preencher o céu,

cada uma com a tensão do relâmpago e a boca fechada no momento anterior ao trovão.

As nuvens negras em formação militar voam à altitude certa para  taparem a luz.

E porque contêm o choro,  a  raiva de serem tão tristes e escuras,   ficam suspensas a matutar numa morte lenta em vez de trovoada.

Quatro nuvens pretas transportam-se aos ombros.

Nem está frio nem está calor, está dormente,  de dentro como de fora.

Cinza em pó que se cola a tudo, até à memória do sol .

Talvez que se lave na chuva, pode ser que se dilua na água e faça outras nuvens mais negras,

mas isso tem um tempo e nesse intervalo está a possibilidade de se vislumbrar o sol.

Assim só de relance mesmo que se sonhe com um chapão de luz.

Também fica bonita a luz a dançar entre as frestas do estore. Assim como se brincasse, num convite jovial, um teasing natural, e ninguém tem pressa de ter toda a luz de uma só vez.

Diz que cega ou encandeia, impossibilita o interesse.

Por isso puseram 4 nuvens negras no céu.

( poema de Florence U. , traduzido por Florêncio T.)



Project Fountain (2 poemas traduzidos)
20 Novembro 2010, 5:51 pm
Filed under: Project Fountain | Etiquetas: , ,

Apartado-Posta restante

Hoje saí para a rua e nem pensei em mais nada que não fosse sair.

Porque a casa e todas as casas seriam demasiado pequenas. 

Quando se ri  por não saber cumprimentar as flores devidamente, quer dizer que se ama.

 Sim.   Amar com a convicção exemplar dos suícidas, claro.

 Isso é  assim exactamente. Pode-se morrer  e renascer tantas vezes por dia que as funerárias amorosas serão o  negócio  mais florescente que algum dia puderá existir. E decerto este anseio que reverdesce é feito de pétalas que nos turvam. Benditas .

Amar assim faz dos jovens tontos e dos velhos saudosos. Mas sair de casa à pressa deixa sempre parte da razão.

Os jovens admiram o que acham que hão-de ultrapassar, e os velhos dizem que  querem acreditar que agora sabem que nem sempre valerá a pena sair de casa.

(poema de Trails F forg. raduzido por Trans. Correct)

Qualquer dia hão-de comercializar comprimidos para chorar.

Se eu morrer, inadvertidamente, fora do tempo que se espera;

Decerto naturalmente  matas o sonho de eu ser uma das asas do corpo que imaginei  pudessemos ter.

A diferença do que era ter sido presente, eventualmente, durante uns dias,  fará com que ponhas a mesa com um lugar para a minha ausência. Sentirás nos objectos o registo de mim, saberás que eu sem ser possível  estar, fiquei a ressoar na chávena de barro como as mãos do oleiro .

E continuarás a ser silenciosamente tu mesmo, porque ninguém precisa do outro para respirar o que é. Desconfio que bem dentro de ti tens o espelho que te devolve o ser completo. O teu corpo autónomo é o casulo de uma borboleta inteira.

Já não se morre de amor, isso é doentio.

Mas fazer o luto é apropriado, e assim talvez chegasses a comprar os comprimidos que induzem o choro.

(Louise G. Traduzido por Rosalinda  F. T.)



Project Fountain#4
30 Setembro 2010, 5:38 pm
Filed under: Project Fountain | Etiquetas: , ,

Neste número 4 da revista é traduzido parte de um texto inserido num livro de viagens, aliás esta edição toda ela está relacionada com registos ligados a experiências relacionadas com viagens e diários. 

Da varanda tenho uma piscina lá em baixo, não é muito grande mas a esta hora da noite é de um azul iluminado que tem verde; não muito mas tem,  e as luzes debaixo de água fazem pestanas de luz. São como olhos iluminados debaixo de água.

As varandas têm grades horizontais para não parecerem grades. Servem para proteger da altura a que estamos perante esta luz que parece dizer, sem pestanejar, “mergulhar”.

O rio à frente é negro, sem olhos que nos chamem e nos queiram encandear. O rio nisso é sincero, profundamente verdadeiro, assustador.

Gosto de viajar para me ter e me sentir fora do hábito. É mesmo assim. Percebi que a minha estranheza com o conhecimento se prende nas águas profundas, onde está a indefinição. Aquilo que não se explica nem se tenta explicar porque é inteiro na irresolução.

Tudo o mais são pedaços, como nas fotografias. Ninguém pode enquadrar o tamanho inteiro do rio. Mesmo se conseguissemos seria a superficie.

Tenho entrado em várias igrejas. Pelo conforto de entrar num espaço fechado e fresco mas também pelo que nele se projecta. A forma em cruz da planta das igrejas românicas é simples, mesmo quando parece ser a união entre a linha vertical e a horizontal. Ligar o céu e a terra numa construcção fisica. Se entras nele és o ponto de encontro. Este é o meu lugar, o lado mais fisico.

Vi imagens de rara beleza e sei que a sua beleza está em terem sido construídas por pessoas que conseguiram transmitir o amor. O Santo António a segurar com cuidado e firmeza o menino, foi feito por alguém que se não teve um amor menino, filho ou outro, soube ver nos contemporâneos isso acontecer. Nada espiritual se acrescenta a isto. Isto em si é espiritualmente suficiente para unir o céu e a terra e atravessar o tempo.

Não posso, trabalho nos meus limites e já nem quero ser mais inteligente, quero apenas ser eu, com esta verdade em que se perde o pé. Venham as dúvidas. Venham conforme for acontecendo a vida que no fundo se perder o pé, tenho o esforço da braçada que vai fazer o coração bater mais depressa. Será possível que isto seja a minha paz? Neste momento parece mesmo verdadeiro.

Estou sózinha na mesma, com as pessoas continuo a fazer enquadramentos, como no desenho à vista. Um diálogo acertado em que gastamos o tempo ao mesmo tempo. Estou perante, nem adiante nem atrasada. Dentro do que posso vejo e deixo-me atravessar filtrando o que vejo. Escolho pouca coisa mas escolho. A água cega e estrangeirada da piscina provoca-me tonturas e convida-me ao suicidio mas a morte lenta do rio, com a água negra é para onde vou, já estando lá agora.

É para sempre, muito antes e depois de mim e encontro nela o meu lugar.

(Albertha S., 2006 viagem ao longo do rio Douro em Portugal, tradução de Mathilde Ferreira)



Project Fountain #3 – novo poema
20 Agosto 2010, 2:20 pm
Filed under: Project Fountain | Etiquetas: , ,

 

Ainda do terceiro número da edição, encontra-se traduzido o poema ” Contemplação” de Alphonse S.

Nada nas árvores parece indicar que desejam ter sombras maiores,

nem me parece que algum lago deseje ser mais profundo.

Os peixes nadam e não me parece que fiquem tristes por não conseguirem caminhar.

As flores nascem com extrema beleza e embora nos obriguem a olhá-las, nada nelas existe que seja afectação ou vaidade.

As nuvens continuam a percorrer longos caminhos e quando chove ocasionalmente,

nunca é por vontade própria.

Os rios escorrem continuamente, sempre a nascer e não fazem perguntas.

Tudo parece serenamente amar o que lhe foi confiado da vida.

Tudo parece certo.

Um pequeno pássaro chega do céu e pousa num galho fino de um salgueiro, canta.

E tudo estremece com a mesma delicadeza intensa.



PROJECT FOUNTAIN #3
7 Agosto 2010, 5:18 pm
Filed under: Project Fountain | Etiquetas: , ,

 

O Project Fountain continua a decorrer. Desta vez apresento dois trabalhos traduzidos para português.

Entre Silêncio e Mistério há Mal Entendidos; 

(Bem vinda seja toda a breve e irracional paz suspensa)

Talvez fosse mais fácil se todos tivessemos nascido projectados para a artificialidade.

Presos ao enquadramento equilibrado e à aparente e convicta eficácia da repetição.

Mas se o tempo vai copulando a um ritmo compassado, de cada vez,  a sucessão do espaço é uma  marca  permanente da mudança que ao se abrir é consumada.

E se cada homem é um conquistador que de cada vez deseja perder o tesouro da sua encantadora e quase renovável ignorância,

Ingénuamente se perpetua a esperança que divide o que se é do que nunca mais se quer ser e que desaba.

(Tradução do poema de F. Elfridge M.,  de Mateus Oliveira W in Project Fountain #3)

 

 

Títulos

Os títulos têm o peso dos nomes próprios, seja qual for o processo para os encontrar a finalidade decorre da mesma vontade : denominar  um espaço insubstituível de individualidade.

Decifrar o que se perde, ed. Trentsk, 2014, Louise Bernbrook

Com licença, desculpem se ocupo espaço, ed. Downtown, 2017, Oliver Wall B.

Desculpa, morri agora, ed. Downtown, 2018, Oliver Wall B.

NO PRELO para 2020

Matéria Prima, Matéria Bruta; Os homens são mineiros e sonham com vulcões, ed. Banana, Osvaldo M Seg. P.

A vida imbecil do Sr Empreendedor,ed. Trentsk, Louise Bernbrook

Roer as unhas; como continuar, ed. Douwntown, Albert C.V.O

Parar a tempo,ed. Helás, Robert Silver Great 

 

(Francis S. B. traduzido por Mateus Oliveira W ) 



Projecto Fountain, A fonte das palavras

São boas as notícias que tenho. Existe, aqui e agora,  um novo espaço para sonhar.

A revista Fountain, que em português terá por título fonte das palavras, vai ser editada ( em cima projecto para a capa do 1º número). O projecto concebido pelo departamento de lingua portuguesa, liderado pela professora Maria Willing Veríssimo, da Universidade Academic Boston New Project, será desenvolvido em parceria com a IPDEA (Instituição Portuguesa de Sobrevivência e Dignidade da Escrita e Arte)

Neste primeiro número inteiramente dedicado à poesia, serão editados 30 poemas de trinta poetas que integram o projecto piloto, Got to Live & got to Dream, apoiado pelas Fundações STRTD ( Save The Rights To Dream) e ANL (Art Is No Lie) ambas sitiadas em Boston. Este número revela o resultado do primeiro mês deste projecto inovador.

O projecto resulta de um acordo feito com empresas alimentares e hoteleiras. Durante um ano este grupo de poetas tem assegurada, alimentação e lugar de residência. Os artistas participantes têm um cartão que lhes foi concedido e que lhes permite, trocar os serviços acima mencionados, quer por poemas, quer por outro tipo de tarefas que se proponham dentro de uma lista também ela fornecida no inicio deste projecto. A lista de tarefas que podem fazer,  assenta sobretudo,  em  prestação de serviços à comunidade, por exemplo: um fim de semana a trabalhar na caixa do supermercado, passear cães que estão retidos no canil Municipal, limpeza de rua ou jardinagem em jardins públicos, ou responderem a convites da própria Universidade para darem Conferências sobre temas a serem préviamente analisados. Estes trabalhos apenas tomarão o tempo de um fim de semana.

No final do ano, tendo sido publicados 12 exemplares da revista, serão facultadas as possibilidades de publicação em livro.

Embora o sonho possa ser o princípio, o sonhador não sobrevive do sonho porque tem de viver. E de facto pode parecer  um belo sonho trocar poemas por artigos de primeira necessidade e de sobrevivência. No fundo é uma troca de diferentes serviços. Trata-se de uma real possibilidade de integração do trabalho artístico na sociedade, que muitas vezes não o vê como um trabalho;  que pode e deve permitir a subsistência do trabalhador. 

Sem dúvida uma troca justa.