Maria João Worm


O presépio
7 Dezembro 2017, 11:48 pm
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natal_2017

Este ano, no presépio, a casa ao fundo tem no pequeno quarto uma criança sentada numa cadeira a escrever em folhas soltas à luz de um candeeiro que já foi de uma avó. Rangem madeiras do soalho, e fica imóvel, esta alma das almas todas, que sem ela saber apresenta, na sua ainda breve passagem de existir. Está muito frio e a morte está sentada ao seu lado mas aos pés da cama. Não existem mais cadeiras e a morte gosta ou habituou-se aos colchões e ao cheiro dos lençóis. A morte gosta de se sentar perto das crianças, pode ficar a assistir sem a obrigação de intervir e agrada-lhe a companhia dos que não têm medo dela.

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A oficina do escultor
14 Novembro 2017, 9:59 pm
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Há uma oficina que fica dentro de uma casa de pedra com uma porta de madeira que está quase sempre aberta. É, para quem lá dentro trabalha, uma forma de emoldurar a paisagem, e uma passagem de um espaço para o outro.

O escultor saiu, as peças ficaram no lugar onde ele as tocou, onde lhes deu a forma conforme o seu gesto. São de barro, como os corpos. Movimentam-se no devagar do pó. Parece tudo demasiado silencioso, mas elas conversam baixinho.

Agradecem a canção que os dedos lhes inscreveram e guardam o som do sopro.

 

 



história
31 Outubro 2017, 12:14 am
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lugar

As palavras antes de se fixarem nos livros eram nómadas.

Ouvir e dizer eram as vezes de ler.

Estavam inscritas numa direcção e dois sentidos.

A memória interna apreendia a coincidência com a eterna.

O tempo, a consciência de estar vivo agora, fazia do corpo o instrumento aberto,

onde a música, transversal à existência, seguia perpétua,

na voz que é em cada ser.

Fixaram-se as palavras e a humanidade.

Para conforto,

construíram-se micro-mundos em quintais,

desviaram-se rios, cruzaram-se e desenraízaram-se  espécies,

violou-se a sabedoria.

E assim tornou-se mais claro que ela existia.

Mas ao violentá-la e ao fazer o corte de a aceitar tal como é,

ela que habitava o centro de cada ser, fugiu para o céu.

Mas seguiu-se cegamente o valor da delimitação,

pela posse da breve assinatura de uma vida.

Em vez de se procurar o alimento,

achou-se o direito de trazer para si,

o que convinha ao desejo do momento.

A Humanidade fez da Vida Una, a violência de se estilhaçar em indivíduos,

capazes de se matarem e matar, para adquirirem o poder do monólogo.

E assim escrevem-se livros,

à procura da coincidência que se perdeu.

E apenas ficou mais definido,

o espaço onde se deve enterrar os mortos.

 



Água
16 Agosto 2017, 11:53 pm
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paisagem

Mina dura, cristalina

Montanha do eu antes de mim

Desce!

Trina a árvore,

Corta clara a luz no chão.

Já não espero.

-Vale geograficamente ser feliz?

Onde as flores de cores tão certas

Passam por tudo o que fiz?

Vale o desenho de geograficamente ser

O ter sido o que é agora?

Alva flor de cor tão certa

Mata-me a seda do vulgar.

Atempadamente a beleza é a oferta

Do que não me pertenceu.

Resta o fusco, toldo, trombo,

Tralha tímida.

Tristeza do que aprendi.

Volta a tratar: retrata

Limpa com a água usada,

Chá do chão por onde passei.

Na casa vão ficar os quartos minguantes

Sem passar a lua nova.

A minha terra é um observatório

E um lago de águas paradas.

Reconheço o reflexo dos ciclos

Mas não posso devolvê-los.

Aprendi que passatempos duram apenas por si.

Sou do tempo,

É em mim que ele torna visível a forma da sua existência.

Sou alimento que se come e é comido.

Acho as palavras que amo

Enquanto se segue

O veio afluente do rio.

Canta a água a liberdade

De seguir por entre as margens.

E tudo é motivo de paragem

E segue-se mesmo assim.

Salgando-se a água doce.

 

 



Emideo Sagaz um homem capaz de permanecer indiferente com Dona Jervázea, a independente. Da Póvoa da Várzea ( naturalmente ).
31 Maio 2017, 8:36 pm
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Caderno



L’ORSO BOROTALCO E LA BAMBOLA NUDA ITALIANA
25 Fevereiro 2017, 8:43 pm
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artes-e-letras_orso-e-bambola

 

Desde hoje até ao próximo sábado, na montra do Atelier Artes e Letras, a convite de Inez Caria, terei duas caixas de luz que espero conversem com este lugar tão especial. São dedicadas a dois “bonecos” que também se encontram presentes partilhando uma chávena que creio estar cheia da beberagem que aparece quando se dá vida a uma história. Quando anoitece elas irão fazer jus da sua essência, e acenderem-se.

Um urso e uma boneca, um apito-comboio que anima um fio, uma casa que já passou imagens dentro dela para se espreitar. Um sabichão com memória de elefante. Fantasmas para habitar, lembrando-me como se conjugam os verbos. Ser, estar, no gerúndio de existir.

Breve,muito breve. Sopro. Vindo de longe. Agora.

Rua dos Poiais de S. Bento,90

 



Almada Negreiros-Pantógrafo
10 Fevereiro 2017, 7:06 pm
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almada

O desenho é elástico, propriedade de ser assim em si mesmo. Porque concorre com a vida, vai com ela. Incha em agudos, desvanece com gravidade. Eu, eu ensaio, e tu? Eu escolho, apesar de alguém encontrar.Eu ensaio, existem múltiplas possibilidades. Uma será a escolhida.

Como nos amantes está presente a câmera de filmar. Dentro e fora. A repetição esperançosa.

Como acreditar no tempo contado.

Fixar, escrita do agora. Momento.

Performativo.

Música.

É mais importante a síntese.

Hei-de apurar a Vida.

Sincopar.

A jovem beleza.

O arco,

a Grécia.

Encenação,

fazer permanecer a passagem, o corpo máquina em tensão, aberto.

O centro, o equilíbrio, a figura geométrica. A eficácia da claridade,

ciência do amante dedicado, de cada vez.

Arqueologia como revelação, desencriptação do essencial. Possibilidade de sonhar o novo.

Acentuar a possibilidade de triunfar,sobre o escuro.

Ardósia que revela a linha que delimita o particular.