Maria João Worm


Água
16 Agosto 2017, 11:53 pm
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paisagem

Mina dura, cristalina

Montanha do eu antes de mim

Desce!

Trina a árvore,

Corta clara a luz no chão.

Já não espero.

-Vale geograficamente ser feliz?

Onde as flores de cores tão certas

Passam por tudo o que fiz?

Vale o desenho de geograficamente ser

O ter sido o que é agora?

Alva flor de cor tão certa

Mata-me a seda do vulgar.

Atempadamente a beleza é a oferta

Do que não me pertenceu.

Resta o fusco, toldo, trombo,

Tralha tímida.

Tristeza do que aprendi.

Volta a tratar: retrata

Limpa com a água usada,

Chá do chão por onde passei.

Na casa vão ficar os quartos minguantes

Sem passar a lua nova.

A minha terra é um observatório

E um lago de águas paradas.

Reconheço o reflexo dos ciclos

Mas não posso devolvê-los.

Aprendi que passatempos duram apenas por si.

Sou do tempo,

É em mim que ele torna visível a forma da sua existência.

Sou alimento que se come e é comido.

Acho as palavras que amo

Enquanto se segue

O veio afluente do rio.

Canta a água a liberdade

De seguir por entre as margens.

E tudo é motivo de paragem

E segue-se mesmo assim.

Salgando-se a água doce.

 

 



Emideo Sagaz um homem capaz de permanecer indiferente com Dona Jervázea, a independente. Da Póvoa da Várzea ( naturalmente ).
31 Maio 2017, 8:36 pm
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Caderno



L’ORSO BOROTALCO E LA BAMBOLA NUDA ITALIANA
25 Fevereiro 2017, 8:43 pm
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artes-e-letras_orso-e-bambola

 

Desde hoje até ao próximo sábado, na montra do Atelier Artes e Letras, a convite de Inez Caria, terei duas caixas de luz que espero conversem com este lugar tão especial. São dedicadas a dois “bonecos” que também se encontram presentes partilhando uma chávena que creio estar cheia da beberagem que aparece quando se dá vida a uma história. Quando anoitece elas irão fazer jus da sua essência, e acenderem-se.

Um urso e uma boneca, um apito-comboio que anima um fio, uma casa que já passou imagens dentro dela para se espreitar. Um sabichão com memória de elefante. Fantasmas para habitar, lembrando-me como se conjugam os verbos. Ser, estar, no gerúndio de existir.

Breve,muito breve. Sopro. Vindo de longe. Agora.

Rua dos Poiais de S. Bento,90

 



Almada Negreiros-Pantógrafo
10 Fevereiro 2017, 7:06 pm
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almada

O desenho é elástico, propriedade de ser assim em si mesmo. Porque concorre com a vida, vai com ela. Incha em agudos, desvanece com gravidade. Eu, eu ensaio, e tu? Eu escolho, apesar de alguém encontrar.Eu ensaio, existem múltiplas possibilidades. Uma será a escolhida.

Como nos amantes está presente a câmera de filmar. Dentro e fora. A repetição esperançosa.

Como acreditar no tempo contado.

Fixar, escrita do agora. Momento.

Performativo.

Música.

É mais importante a síntese.

Hei-de apurar a Vida.

Sincopar.

A jovem beleza.

O arco,

a Grécia.

Encenação,

fazer permanecer a passagem, o corpo máquina em tensão, aberto.

O centro, o equilíbrio, a figura geométrica. A eficácia da claridade,

ciência do amante dedicado, de cada vez.

Arqueologia como revelação, desencriptação do essencial. Possibilidade de sonhar o novo.

Acentuar a possibilidade de triunfar,sobre o escuro.

Ardósia que revela a linha que delimita o particular.

 



Poço
17 Dezembro 2016, 1:47 am
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poco

 

Não sei porquê à porta da cozinha dois sapatinhos de criança, demasiado afastados, indicam a direcção da entrada. Quase paralelos. E que fazem aqui estes sapatos? Pois só pode ser um sonho. O truque para saber se de facto estou dentro de um sonho, aprendi-o há uns anos, nunca falha, é tentar falar. Quando a voz fica presa sem se articular, dificultosa e gutural, é porque caí num sonho.

Assim chega a imagem da mulher que perto do poço faz o vai e vem da corda, à força de braços, descendo até onde embate o balde de lado. Depois desce mais fundo e enche-se do escuro com nata de luz. Sobe, sobe, sobe e eis que fica luz dentro; luz liquida, luz de água que tomara se conserve pura, retirada do silêncio.

Os homens trabalham lá em baixo, no escuro, concentrados, muito indiferentes a tudo o que não seja a sua arte.

São mulheres destas que indo ao poço buscar água por vezes os encandeiam. Ficam estonteados e contrariados por terem sede. Eles vivem como mineiros. Elas andam na superfície com os pés na terra, bronzeadas pelo sol, molhadas pela chuva, com os olhos inquietos, irrequietos, tristes por vezes quando deixam que se lhes roube a luz. São raros os momentos em que os homens partilham com elas a luz. É o tempo de namoro. O mais vulgar é levarem-nas para a escuridão do conhecimento que os foca, o trabalho a que se dedicam.

A pouco e pouco elas deixam a luz e ficam intermitentes até não lhes servir a presença dos homens que deixam de lhes ver a luz que eles aos poucos apagaram.



Clave só
31 Agosto 2016, 11:51 pm
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ideia_de_chave

Mesmo que seja para ser possível escutarem-se a si próprios, dizem que na cidade os pardais cantam mais alto para se poderem ouvir uns aos outros.

Albertina tinha duas irmãs. O destino colocara-a entre as outras. Nunca soubera o que era ser a primeira, mas soubera o que era ser a mais recente na vida. Nunca pôde saber o que era ser a única, mas soube o que é deixar de ser a mais nova mal a Elzira nasceu. Embora se mantivesse o seu lugar na grande árvore genealógica, ensombrou-se com o galho imprevisto que  aconteceu traiçoeiro. Fez disso aprendizagem para não encontrar certeza em nada. -Que desconfiada és Albertina!- Olha que quem é desconfiado não é certo. Talvez. Talvez sim, talvez não. Nunca se sabe as voltas que a vida dá e temos que ter os olhos abertos à defesa do que provem do lugar onde tudo começa.

Albertina aprendeu muito depressa os números e assim como sabia somar também subtraía com igual repente. Já dividir era mais difícil mas também é compreensível e multiplicar é coisa de empresa milagreira. Com o custo que se sabe.

Albertina voltou a ser a mais nova das irmãs no dia em que Elzira morreu. A conta apresentava-se certa 3-1=2. O galho mantinha-se no desenho histórico, mas não no organograma da função dos vivos.

Embora enquanto agonizava em febre, Elzira mantivesse a multiplicação de elogios, nunca deixou em vida de ser a mais recente das irmãs.Todos se ensurdeciam da fé que lembra as flores que morrem apesar de mil cuidados. Só Albertina sentia culpa. E de facto a irmã morria segundo o desejo que sentira mal ela nascera. Mas reconhecia-lhe a capacidade de agradar no gesto mais simples, como quando chorava ao ver o que parecia não existir antes de ela o apontar.

Ao morrer coube o momento a Albertina estar por perto de Elvira. A outra na cama absorvida na almofada, febre alta, convulsões azuis, veias, medo de olhos a rodar. Água por favor. Depois já sem pedir nada e a só querer falar muito. Dizer o que se tinha passado, o que gostara mais e menos, tudo em seguida. Segurar a mão que por ali estivesse e ser de igual modo para todos, sangue igual da mesma sorte diz a leitura de se estar vivo.

Nessa tarde em que a mãe descansava de não ter dormido de noite e o pai fora para onde costumava ir sem se lhe perguntar, Elvira de olhos brilhantes, a adivinhar o contrário, quis sussurrar a Albertina, umas que seriam as suas últimas palavras. Albertina aproximou-se cuidadosa, com algum nojo de contágio e piedade impossível. Balbuciou Elvira na voz encriptada dos que pousam entre os mundos. Mais para dentro que para fora. Uma frase muito curta.

Albertina pediu que repetisse, pois não tinha conseguido ouvir as palavras que em esforço a irmã dizia com o corpo todo na boca a resvalar. Mas dela não se ouviu mais nada.

A seguir, ou durante o momento entre as coisas, morreu. Sem convulsões, sem estrebuchar, sem luzes a entrarem no quarto para lhe transportarem a alma.

A mão dada descolou-se para o lugar dos vivos. Ouviu-se um silêncio sem choro. Depois olhou sem conseguir, com os olhos rasos de vazio. Insistiu e estranhou o corpo, a indiferença de estar viva.

-Acho que ela me pedia desculpa, ou me desculpava a mim- E assim ficou Albertina a repetir-se, sentada ao lado da morta..

 

 

 

 

 

 

 

 



que preciosa ès
7 Agosto 2016, 7:20 pm
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4_portasEnquanto nascia Maribel morria a sua mãe, levando assim consigo o que se sabia do pai.

Os mais gaiatos e os que não sabem de outra maneira, diziam que a Dona Mariazinha tinha morrido de susto. E olhavam de lado, confiantes de terem graça, sem darem conta da sombra das árvores, fresca e séria, de onde se lhes fitava o até que ponto é que se brinca com a morte.

Ora uma criatura de Deus, mesmo que feita à imagem do desastre, existe e é preciso ter piedade. Foi assim a menina criada para servir. E não fosse só o aspecto causa suficiente para a tornar diferente, coube-lhe um desmiolamento descarado que a trazia feliz todos os dias.

Antes assim-diziam as mulheres-Não sabe que aberração é. Diziam aliviadas de não serem como ela, por poderem exercer a bondade envenenada com que se matam as mulheres tristes.

As mulheres tinham acordado entre elas condenar Maribel a ser a mais feia e tonta. Todas saíriam em vantagem quando comparadas com ela.

Aos homens não foi pedido que participassem nesta avaliação. Eles, mesmo que evitassem olhar para Maribel, sentiam uma constante repugnância curiosa, aquele incómodo inquietante dos dias de Verão desocupados.

Mas se fossem consultados pontualmente, confirmavam a extrema feiúra de Maribel, a contrastar com a inequívoca beleza das mulheres e em particular acrescentariam a da sua consorte, fosse esse o caso.

-Se tens que o fazer, fá-lo bem feito!-dizia o velho que já não fazia mas havia feito.

À medida que ìa crescendo, acentuava-se no seu corpo a tendência de contrariar o que fora convencionado ser belo. As vozes piedosas abanavam a cabeça, sussurrando-coitadinha-, logo que a viam passar, muito feia e sorridente, a olhar para o que está atrás das coisas construídas. Um sorriso largo com gengivas e saliva aos cantos. E uma predisposição para o bem que preocupava o Sr Padre e todas as senhoras igualmente de bem, que bem ou mal, sabem um pouco de tudo e se regem pelos costumes onde penduram a roupa suja dos outros.

Maribel apreciava a luz. Por entre as folhagens, a tremeluzir na água, em pequenos brilhos espalhados no chão de pedra, nos vidros e no vitral colorido da casa do Conde del Bosque.

É certo que quando Maribel começou a limpar a casa do Sr Conde todas as quartas-feiras parecia ter encontrado um propósito consensual. E essa trégua de silêncio foi apenas tempo cumulativo onde germinava o que viria a seguir.

Bem visto, o casarão era grande e mesmo com toda a entrega de um dia inteiro a varrer o pó e a esfregar o chão, pareceu ao Conde que descobria agora o quanto necessitava de viver num ambiente limpo, pouco tempo. Assim Maribel passou a ir segunda, quarta e sexta-feira. Quanto mais limpa a casa ficava, mais sujas as conversas de quem se punha a adivinhar o que se passava dentro do casarão.

A pouca vergonha do Paraíso era intolerável. E o mau exemplo para os jovens e afinal quando é que o Padre vai falar com o Conde.

Não sei o que se passava dentro de casa. De facto Maribel apareceu com um vestido novo, foi vista com um lindo lenço de seda que pertencera à Condessa,  continuava a sorrir e já indo isto tudo em ano e meio, nada de engravidar.

Quando Maribel se mudou para a casa do Conde del Bosque ninguém estranhou. No saco pequeno onde juntou o que tinha, ìa uma caixa com pedrinhas, daquelas que brilham com a luz. Mais tarde o Conde disse-lhe que eram pedras preciosas.

Mas dizem que tudo isto aconteceu porque o Conde via muito mal.