Maria João Worm


impermanência
19 Fevereiro 2016, 1:05 am
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As palavras têm vindo a tomar significado ao longo da minha vida.

Significado é reconhecer o corpo da palavra no meu corpo. É viver a palavra, representá-la. Ser a palavra.

A impermanência, já sabia dela. Incómodo a chegar à dor, cadência do inevitável que renova, condicionado pela construção racional apaixonada cegamente pela certeza dos números.

Contagem do tempo que agora tenho fixa paradoxalmente em mim própria num alvo.

Ela aproveita o alimento que eu sou enquanto vivo a minha impermanência.

Temporariamente factual.

Dizem fórmulas matemáticas o que sabíamos. Lentamente as circunferências concêntricas aparentam o imutável.

O significado muda, cala-se profundamente e assim pode permanecer.

Ruminar como os muros mais antigos, arredondados, afundados na terra donde saiu a matéria que os construiu.

E de repente reparas que nasceu uma haste verde, no lugar onde te dizem morreu uma flor.

 



onde zune a lua recordando os ermos
29 Janeiro 2016, 2:21 am
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estrelas

Ajuizar poderia ser ir com um grupo de juízes avistar o mar. Ou arejar o jus sem prévia justificação.

Ajuizar poderia ser um ponto de costura muito apertado, usado em golas e em punhos e nalgumas sedas que nos sabem prender a jugular.

Ajuizar poderia ser um jogo de azar, zarpar na barca bela do pescador.

E finalmente conseguir justificar, ter-me deixado ser a presa.

– Para onde vão os pensamento que desaparecem mesmo agora depois de eu os perder?

Vão decerto encontrar uma luva ou lenço, um chapéu ou uma ideia. Alguém os encontrará. Só espero que lhes assente, julgo que sim. Assim, o que foi perdido agora, outro dele poderá tirar proveito.

– Não me parece divergir do que queria dizer acerca de um ano novo. É Janeiro, pode rimar com Fevereiro. Daqui a pouco estamos lá.

Quando se perde um documento, pode-se andar assim. Poderá haver desculpa.

– Donde escrevo há neve e madeiras em que nos sentamos e chamamos trenós. E afinal o que quero dizer? Que invento a neve para deslizar e que a tristeza foi quem melhor me construiu a possibilidade de me deixar ir. Assim maravilhosamente desço sobre o branco capaz de se exaltar numa avalanche. Muito boa noite dizem as corujas da torre, sim boa noite respondo eu. Não sou um rato, ou serei? Que excelente educação temos!

Mas não é isso que queres dizer. Queres relembrar que as sementes estão prestes a acordar entre si a Primavera, e que escavaste com unhas sujas 3 lugares para flores que hão-de vir se tudo correr bem. O Inverno é também isto, estar à espera, e os cigarros serão sempre a tua vontade de desfazer a harmonia. Não sabes melhor?

– Então se tu sabes que plantei as flores que se tudo correr bem na Primavera hão-de ser?

Pois, embora nunca chegue o que consigas fazer, chega sempre o que acontece.

 



O Presépio (este ano)
24 Dezembro 2015, 2:09 am
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presépio

Ficam de um ano para o outro numa caixa, adormecem de lado numa cama de papel. Já não me lembrava que da última vez os induzi no sono com papéis de cores diferentes. O cordeiro, da mesma cor do rebanho, mais o burro e a vaca. Papel de seda. Por afinidade o anjo ficou com o mesmo papel do pastor.

O jaguar com um corpo de estrelas simples, que quis vir do México connosco, ainda sem ter dormido em papel, chamou outros para estarem presentes. E ficou, no estar Agora assim. Agradeço à lebre que relata deste modo:

 

Naquele tempo, quando as montanhas eram acariciadas pelas árvores e as casas eram térreas, aconteceu um dia perceber o lugar da noite (quem escreveu riscou o que segue) aconteceu num dia, uma noite.

Foi quando uma mãe, com a sabedoria de dar à luz como as estrelas tão antigas, cintilou a passagem e parou o Tempo.

Foi então que um elefante branco fez descer um jaguar do céu, enquanto uma mulher depois de lavar a roupa numa fonte, passou o caminho do riacho.

Tinha espalhado a roupa branca pelo chão para que secasse na altura do Sol mais intenso e ao recolhê-la adivinhou em cada peça formas, como quando se olha para as nuvens. Uma camisa pareceu-lhe um pato, outra um urso branco a brincar, outra um carneiro com um rosto de um cão. Até viu uma lebre, nas dobras de um lençol, que estava a escrever a tinta azul numa folha branca sobre uma mesa. Sorriu.

Mais tarde, ao anoitecer, um pastor bebeu água da mesma fonte e soube que a frescura sentida por dentro era o reflexo das estrelas a tremeluzir no riacho.

Tudo indicava ter em si o início.

As ovelhas e carneiros exalavam um bafo morno de vida. À tardinha tinha passado um burrico e ele lembrara-se da infância. Uma vaca com a língua áspera a lamber-lhe a mão.

Então fez-se silêncio.

 

(Natal de 2015 depois de ter aparecido o presépio)

 



O Tempo de Planck
10 Dezembro 2015, 12:24 am
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Diniz Conefrey

Imagem gentilmente cedida pela Tate Gallery

Como li pareceu-me que no princípio seria o ínfimo e nesse lugar todas as partículas eram incaracterísticas, no sentido de não haver confronto entre elas.

Sujeitas pelo exterior a uma mudança, elas terão seguido a sobrevivência transformando-se segundo o momento e o potencial que então se revelou. Assim cada uma se tornou um caso e existe pela primeira vez a individuação. Cada expressão de vida não é consciente mas ocorre dessa necessidade ou impulso de sobreviver.

Com características diferenciadas, juntam-se com outras afins, ou repelem outras. Criam-se grupos. Cria-se movimento, confronto. Uma malha, uma tessitura, que acolhe seres diferenciados, o que abre o movimento do tempo: Impermanência e perpetuação como resposta.

Começa a escrita ou seja o registo de uma assinatura em cada pequeno ser individual. E a continuidade de cada conjunto de características. Pelo simples sentido da atracção, reconhecimento, e ou repulsa, por aversão ao desconhecido.

E assim fomos expulsos do Paraíso.



Mas afinal que raio de ideia para se desculpar que não vale um caracol
24 Novembro 2015, 12:16 am
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(desta vez a imagem é a escolha de ser vossa) Tem um verde carnudo e intenso, tem também a cor das folhas que caem agora: o vermelho que é castanho onde se dobra.  E ao caírem desenham com vagar o  movimento de um traçado, como nunca saberei dizer.

Um caracol come um pé de morangos, que de flor branca deu fruto, beija-o, a julgar pela forma que fica marcada. Mas beija com uma tal intensidade que só é possível perceber na parte do morango que desaparece em forma de cratera. Também alterna na experiência que tem com a folha dura de uma malagueta vizinha. Anda a deambular, espero que livremente, entre o doce e o picante.

Vejo-o satisfeito, nunca o vi no acto. Por vezes apresenta-se de barriga para o ar. Deleitado aparentemente.

Já o pé que se resolve em morangos, diz de outro modo. Fica como é comum aos vegetais, abre os braços de folha carnuda para o sol, na maravilha de fotossíntese. Deslumbrante. Translúcido com a assinatura de não ser uma couve, mas tal como as roseiras, destemido, neste caso aberto aos poros atirados para donde vem a luz.

Passa um pisco, com a sua cauda sensível, com código Morse directamente à medula de se estar agora aqui.

Uma mosca, nunca ambiciosa, quase zune, quase como uma abelha. Senta-se arranja a sua perspicácia, limpando-se.

Que vadiagem tão boa.

 

O que se pode passar numa floreira.



Um banco pode ser um lugar para nos sentarmos
2 Novembro 2015, 10:25 pm
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banco

Não me apetece falar muito. É Outono. Posso ter tempo para me debruçar sobre as folhas. Ainda bem, penso eu.

Não avanço. Não por medo. Tenho muito medo mas não assim.

Tanto é feito. Que eu espero. Visitas de filmes, álbuns.

Visita-me o nascer de tomateiros e morangos. Que maravilha é assistir, o tempo a marcar a sua presença. Quem sabe disto, dirá que primeiro vem a flor, a cor escondida por dentro do fruto.

A pintura hoje parece-me isso, a cor que está por detrás, o céu é vermelho e tem azul por cima, A quem pinta dever-se-ia perguntar: que cor dá a cor ao aparente. Que cor está debaixo do que se vê.

Uma rapariga viváz como as flores na primavera perguntou-me: Quantas vezes já foste violada.

Na altura senti-me uma criança, a brutalidade da pergunta não me pareceu estranha, recebi-a, no lugar onde ficam as frases a que não se sabe o que responder. Mas nunca mais me esqueci, pelo menos até hoje.

É interessante a ascensão e a queda. Movimentos que pressupõem um ponto donde se define a neutralidade ou a sobreposição coincidente do momento inicial. Depois o para cima e o para baixo, numa mesma direcção.

Como um reflexo num lago calmo, num dia sem vento. A queda (se entretanto fomos em direcção à luz, como a natureza verde) vai no sentido de encontro. A ascensão no do afastamento.

Ou se fica, ou se regressa ou partimos. Se passamos por tudo isto, desenhamos um gráfico.

O registo do batimento de um coração.

A Impermanência é uma das qualidades de se estar vivo.

 



Outono
24 Setembro 2015, 10:28 pm
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canario

Um canário quando canta solta o som do seu trinado no fio que lhe prende a vida à extrema idade do sol