Maria João Worm


Poço
17 Dezembro 2016, 1:47 am
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poco

 

Não sei porquê à porta da cozinha dois sapatinhos de criança, demasiado afastados, indicam a direcção da entrada. Quase paralelos. E que fazem aqui estes sapatos? Pois só pode ser um sonho. O truque para saber se de facto estou dentro de um sonho, aprendi-o há uns anos, nunca falha, é tentar falar. Quando a voz fica presa sem se articular, dificultosa e gutural, é porque caí num sonho.

Assim chega a imagem da mulher que perto do poço faz o vai e vem da corda, à força de braços, descendo até onde embate o balde de lado. Depois desce mais fundo e enche-se do escuro com nata de luz. Sobe, sobe, sobe e eis que fica luz dentro; luz liquida, luz de água que tomara se conserve pura, retirada do silêncio.

Os homens trabalham lá em baixo, no escuro, concentrados, muito indiferentes a tudo o que não seja a sua arte.

São mulheres destas que indo ao poço buscar água por vezes os encandeiam. Ficam estonteados e contrariados por terem sede. Eles vivem como mineiros. Elas andam na superfície com os pés na terra, bronzeadas pelo sol, molhadas pela chuva, com os olhos inquietos, irrequietos, tristes por vezes quando deixam que se lhes roube a luz. São raros os momentos em que os homens partilham com elas a luz. É o tempo de namoro. O mais vulgar é levarem-nas para a escuridão do conhecimento que os foca, o trabalho a que se dedicam.

A pouco e pouco elas deixam a luz e ficam intermitentes até não lhes servir a presença dos homens que deixam de lhes ver a luz que eles aos poucos apagaram.

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