Maria João Worm


Duas passagens
1 Janeiro 2012, 1:25 pm
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Existe uma música que sempre esteve presente. Um lugar geogramático onde as palavras dizem profundamente  o que nos escapa quando apenas  respiramos. O som da grafite parece uma conversa apressada à medida que hesito ou avanço nas nas palavras escritas. O meu coração não se parte é inquebrável, o meu coração morre e renasce porque continua. Mas doi em cada parte que morre e tornou-se habitual doer e eu fico por enquanto viva. Verão de 2008,  apanhei do chão um pardal pequeno, alimentei-o durante dois dias. Ontem parecia mais forte, hoje às 6 da manhã estava cheio de vida. A vida é vermelha e laranja, tem veios escuros e sobretudo canta a mesma música do ritmo de respirar que tudo o que existe vivo partilha. Mais uma vez, sem saber despedi-me da vida. Tive-o nas mãos que tenho quase sempre vazias. Ele aconchegou-se, entregou-se ao lugar quente e húmido que é outra caracteristica da vida. Mas também neste lugar de calor e água que cada um tem enquanto ser vivo, sabe-se que tem lugar a morte e que viver  é quase a doença mortal por excelência. O pequeno pardal morreu sózinho, num pano às riscas, sob o calor de uma lâmpada. Antes, às 6 da manhã, ainda os dois vivos, trocámos pensamentos e eu admirei mais uma vez, esta presença extraordinária da força ritmada que nos dá a vida. Olhei e senti-lhe o corpo. Pensei tão dentro de mim que foi como um acto religioso em nome da vida e da morte. Hoje já não existe o pardal e eu ainda sobrevivi. Ainda não o enterrei, fá-lo-ei amanhã, domingo, talvez bem cedo quando a luz não doi nem queima porque assim era o seu corpo frágil, despido, atravessado da mesma matéria das minhas mãos. Hoje a minha mão direita tem a forma de um ninho vazio.

 

17.30 29 de dezembro de 2011

Em dias de Inverno,  como este,  de céu azul.

Atravessando a alameda de plátanos,

as árvores estão cheias de pássaros que enchem com convicção o ar.

E o nosso corpo existe calado entre o restolhar das folhas que se pisam ou empurram.

É certo que o som irrequieto, tolda-nos.

Não  há acesso às nuvens, só à gravidade do chão.

O tempo existe porque o coração vive 

 e as árvores, inesperadamente cantam.

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