Maria João Worm


A URNA DA BALEIA
7 Novembro 2009, 1:56 am
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a_urna_da_baleia

A urna da baleia, linogravura em papel de seda 29,5 X 40 cm ; tiragem 8

 Esta gravura foi feita a partir de espuma do mar e madeira branca, como ossos limpos. Foi feita sobre um esboço e quis registá-lo assim. Tem que ver com o que na praia chega vindo do mar no Inverno. Está à venda na loja do site www.quartodejade.com por 110 € com portes incluídos. A tiragem é apenas de 8 e foi feita com a técnica de matriz perdida. Ou seja, mesmo querendo não há mais.



Plantas dos pés versus projectos
25 Outubro 2009, 6:23 pm
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envasadosOs filmes, os livros, a música, a poesia,  o desejo de conversar, pelo prazer de descobrir. A postura que se tem em relação ao que se quer que aconteça connosco,  dentro do que parece sempre estar, antes e depois de cada um de nós. Quero muito que a cabeça adormeça, mas o maior desejo é que o cansaço de querer encontre um lugar. Vejo ao meu lado como se ocupa o tempo. E eu? Sim,  ocupo também o tempo. Contradigo-me quase sempre. E quero tanto ser salva por palavras, por imagens. Encontrar. Eis o que acho que salva o dia de todos. Dar de caras e corações. Acho que não é preguiça mas o anseio é encontrar. No meu meu caso não tem de obrigatóriamente que ver com o esforço da procura. Outro dia falava de plantas dos pés. Sim,  as plantas dos pés, esse lugar que ainda sendo nosso,  pisamos e ao mesmo tempo serve de ligação com o chão. De tal modo sensível que o protegemos com solas e sapatos. E depois é realmente quando nos esquecemos da nossa presença que os pés são mais plantas; de resto o que nos é proposto são projectos. De momento o corpo não me dói, a aparelhagem que se resolve dentro de mim e que vai estando funcional e me permite dar largas à cabeça e ficar a pensaricar nisto e naquilo, sem dor de processo, vai simplesmente sendo.  Não me dói a máquina, embora só saber dela me faça ter dó. Uma música primária sem sustenidos ou bemóis. Que dificuldade é esta de se ter presente a possível e desejável vida sem a dor física. Esta ingratidão desconcerta. Deveria saber que hoje o que não sei é possível que seja a circunstância de haver felicidade. Ou alegria, já que cabeças melhores do que a minha as distinguem.



VISÃO
11 Outubro 2009, 5:51 pm
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visao

Esta pintura é sobre a visão. Encontrei-a na forma de fotografia, nos arrumos que volta e meia se fazem. Já não a tenho porque foi feita sobre papel de alcatrão e amachucou-se num dos tais arrumos. O papel de alcatrão também desapareceu do mercado.



DE QUEM NOS PERCEBA
25 Setembro 2009, 9:25 pm
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A propósito de andarmos à procura de quem nos perceba. De quem demore o tempo e ao mesmo tempo retenha todo as irregularidades e substâncias do que escrevemos. Todos os lados que nós próprios quando fazemos apenas sabemos da presença. Querer quem escreva a acta desta reunião entre o ser e fazer, alguém tão perspicaz e hábil que consiga coser a sombra ao Peter Pan e que o faça sem utilizar a agulha ou as mãos. Alguém que o faça por um meio que está por dentro, a um tempo quase irreconhecível e por outro tão certeiro que não restam dúvidas de ser a imagem reflectida mais nitida do que a imagem que se dá ao reflexo. Ansear por uma alma maior do que gémea um igual mas superior, maior e mais profundo capaz de resolver os enigmas mais intrincados, mesmo que não os devolva desencriptados. Alguém que guarde a memória total e essencial do que escapa em cada pensamento e que o faça por amor de tal forma empático que nos torne nos narcisos mais narcisos. E por haver esta ligação, alguém que não pede mais do que se dar ao reflexo porque nele próprio se encontra. É isto? Espero que não.



NO FIM DE AGOSTO
23 Setembro 2009, 3:01 pm
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o meu avô 1



As asas são o som que se aproxima do eixo donde tudo permanece edificado
13 Agosto 2009, 11:07 pm
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Há medida que as férias se vão sucedendo, junta-se o tempo. Como quando se visitam castelos. Ruínas incompletas que pedem que se lhes acrescente a vida que temos. Histórias que habitamos com curiosidade enquanto a nossa  toma forma. Com mais idade, as muralhas tomam uma única forma que resiste. As flores que nascem nos veios são o presente que substitui a necessidade de fotografar. A densidade de estar e ser ao mesmo tempo, como se  ingleses  fossemos, deixa de lado o desejo de ficar suspenso, para um tempo que há-de vir. Visitar lugares em ruínas, templos traçados onde gravita um hálito central que agora se descobre que é azedo, apenas descreve uma circunferência fria de moscas que perfuram o espaço.

Depois existem os átrios, intervalos de construção. Parecem abandonados à espera, sem outro desejo que não o das flores que soubermos ver. Neles há uma hora que apenas existe nas sombras a quarenta e cinco graus. As esquinas definem-se porque os pátios se enchem de luz. Nessa hora coincidente, unem-se os pontos que construiram os templos. Segundo o gesto único que desenha no tempo a verdadeira geometria do amor.



UM DESENHO
4 Julho 2009, 7:52 pm
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peixes-blog

Vi  peixes. Pode parecer tolo mas vi peixes. Num lago , num jardim. O que quero muito dizer é que vi . Vi intensamente.

 E aconteceu-me o que tenho perante o céu à noite. Vejo tamanha beleza que apenas consigo vislumbrar. A minha capacidade de abarcar sabe que é menor do que o que tem perante os olhos. Contudo o vislumbre de olhos fixos que mais parece pelo canto dos olhos é uma oração em forma de verso que discorre através de mim. É tão maior do que alguma vez poderei ser que eu não consigo olhar e ver. Talvez seja a aproximação possível à face de Deus. E de facto não é possível vê-la. Não porque ela se esconda, ou lhe dê uma mania de grandiosidade. Ela apresenta-se simples. O olhar é que não está à altura, o meu olhar não consegue ver a intensidade da beleza de Deus. Nem sequer é trágico é apenas isto.

Chamo Deus ao que na Natureza se apresenta. Integridade, raíz.



Não penso que se nasça iludido ou ignorante do que nos é próprio
18 Junho 2009, 10:05 pm
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o dinossauro com que começei... a fazer cartoon

o dinossauro com que começei... a fazer cartoon

(continua) Continua o escrever fora do que me propus fazer. Hoje acordei com este pensamento que poderia perfeitamente ficar só para mim. De qualquer modo existe esta vontade de dizer. Não que se cumpra uma missão, nada disso. Apenas o movimento, o que faz com que se emprestem livros e que nos deixa assim, entre o princípe das mãos vazias e uma parábola a escolher. Provávelmente tem moral. Já nem sei se felizmente ou o contrário.

Dei comigo a pensar na distorção, nas boas intenções, no enredo da educação. Escrevo sem saber exactamente onde isto vai parar. Nem se trata de arrojo, poucas pessoas lerão isto mas insisto. Porquê? Não sei mas suspeito de uma grande vontade de ouvir quem diga ou escreva o que está para além de mim até o saber. Sem dúvida que o que acabo de escrever pode ser interpretado como  contradição com o belo título deste post. Mas penso que uma coisa é ser individualmente, outra coisa é passar à comunicação. Nascemos desinteressadamente do outro, precisamos dele para subsistir. Se nos forem facultadas as acções que nos permitem a sobrevivência, logo aí nos destacamos. Os que choram mais ou menos. Os que cedo aprendem o jogo do poder do afecto, ou os que pelo contrário prolongam a dormência de se bastarem a uma existência, sem  mais.

o mesmo dinossauro com que começei, nos anos 86

o mesmo dinossauro com que começei, nos anos 86



Quem disfarça melhor são os peixes porque choram dentro de água
8 Junho 2009, 9:55 pm
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conversaTempo. Assunto para uma redacção. O senhor Tempo que passa. O senhor Tempo, provávelmente por vezes tem o trabalho que eu saberia ter. Ir rua abaixo, em direcção contrária, a sorrir momentâneamente, quase indiscriminadamente. Uma violência simpática e ao mesmo tempo uma sobrevivência empática que cumprimenta o outro.  É possível dizer adeus a desconhecidos, um num comboio outro na gare.  Saber exactamente que nesse encontro/despedida se pode ser um pouco mais do que normalmente e não se sabe bem porquê. Pode ser uma espécie de movimento inconsciente, mas a sê-lo,  utiliza a espontaneidade de poder ser só  coisa que sai do corpo. E se o comboio pára e quem se cumprimentou continuar o começado. Se duas pessoas conversarem.



Acerca da exposição “de rosto voltado para o sol”
1 Junho 2009, 8:13 pm
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oratório, caixa em mdf, fundo com gravura e colagens sobre papel e pequena escultura ( neste caso, um burro) suspensa, 75x37,5x20 cm

oratório, caixa em mdf, fundo com gravura e colagens sobre papel e pequena escultura ( neste caso, um burro) suspensa, 75x37,5x20 cm

 

” terminadas todas as pequenas tarefas, adormeço de rosto voltado para o sol” é um excerto, traduzido por António Graça de Abreu, do último poema de Bai Juyi.   Foi uma exposição, feita na Galeria  Trema em 2001. Parti de poemas de dois poetas chineses do periodo Tang; Li Bai e Bai Juyi.  O tempo estava acertado pelo encontro com os poetas e apesar de por vezes ser  difícil porque tinha dúvidas por estar a ir buscar referências de uma cultura que me fazia sentir dividida. Por um lado a escrita atravessava o tempo, por outro lado, sabia que tinha de me guiar com cuidado, pois o que sei que me tocou é mais do que isso, teria de haver o respeito de evocar uma cultura da qual precisei de saber mais.  A Lua esteve sempre presente , quer em poemas, quer em reflexão.  Claro que se pode questionar tudo mas se um trabalho é feito por dentro, mesmo que se possa escavar em niveis mais profundos, o que se apresenta tem em si mais do que “eu”. Se há coisa que não se pode enganar é a consciência e a profundidade. Pode ser-se pouco hábil. Fica assim assente que me orgulho e morro do mesmo, uma capacidade incapacitante. Não há uma parte que vença nisto, o orgulho cai  e o lugar onde me encontro faz com que, do quase nada, se dignifique ser.  Fui levada por palavras, o género de arrebatamento que as paixões fazem.  Nas palavras encontrei paragens para nos sentarmos,  perder tempo e ganhar tempo. De facto este contar compassado que não nos dá descanso, diz-nos cada minuto. Em cada instante morrem as memórias, mamutes que viveram e que agora mortos formam a exacta passagem de cada segundo. Pesam,cadáver e história. O tempo em que fiz esta exposição embora tenha evocado a lua, vivia sob o sol. Um sol que na sua capacidade extrema dá a luz e queima. Mas nesta altura era sobretudo a luz que aquece e alumia, mesmo os pensamentos lunares.

Escrevi assim no catálogo: ” Sei que estive a trabalhar sobre uma tradução de poemas chineses e tentei cada vez que entrava na sala onde pinto, evocar a ideia longínqua de uma cultura que apenas senti ao de leve. Tentei encontar-me com Li Bai e Bai Juyi. Tive em conta o meu caminho que ainda percorro e os caminhos cumpridos destes dois poetas. Fui com eles a montanhas, bebi taças de vinho, deixei emocionar-me e deixei que o que fui fazendo se enchesse do espírito que eu queria tanto que ainda tivesse sido mais simples. Encontrei-os em tardes mais críticas e difíceis, em noites menos libertas e em pequenos conhecimentos e referências com que estruturei os porquês de algumas decisões plásticas. A poesia atravessa o tempo e eu quis aprender a brindar à vida com o mesmo amor que nos parece unir. Os meus limites tornaram-se meios de representação e registo. ” De rosto voltado para o sol” que é a frase traduzida do último poema de Bai Juyi, aplica-se à vida e à morte. A mesma paz essencial.

A Li Bai, amante de espaços abertos e senhor do seu dom livre da escrita, couberam as pinturas. A Bai Juyi, mandarim, homem estudioso e construtor dos seus jardins,couberam as gravuras de minúcia mais contida.”

Escolhi dois oratórios (para acompanharem este post), de entre os outros trabalhos . Parte da exposição está no site www.quartodejade.com , em galeria , a capa do catálogo tem uma série de gravuras em sequência; o importante nessa série é o processo. Partindo de um linóleo que vai sendo escavado e de cada vez sendo impresso até chegar ao não ter o que imprimir e que mesmo assim se revela numa imagem abstracta, aparentemente difusa, queimada. Assim podem ser as marcas que ficam, terminadas as pequenas tarefas.

oratório, caixa em mdf, fundo com gravuras e colagens sobre papel, e pequena escultura ( neste caso o macaco) de papel,suspensa, 75x37,5x20 cm

oratório, caixa em mdf, fundo com gravuras e colagens sobre papel, e pequena escultura ( neste caso o macaco) de papel,suspensa, 75x37,5x20 cm