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Poderia deixar apenas ” ARTE SÔ. De tal modo me tocou a exposição que me pareceu tonto acrescentar palavras. Mas não resisto. Quem possa ir ao Restelo, ver esta exposição não perca. Infelizmente a imagem facultada pelo Museu corta o enquadramento, todas as histórias esculpidas vivem de um enquadramento que é de uma beleza e integridade que acho que faz o todo que andamos à procura. Uma felicidade estranha ao mundo das artes, por ser exactamente. E ao ser assim, encontra a dificuldade de se catalogar e arrumar.
Não existe lugar para um arrumo, nem deveriamos deixar que existisse, para tão extraordinário trabalho. Ele pode não ser sempre constante, mas isso não é exactamente perguntar? Ou pelo menos experimentar?
Está o Museu aberto aos sábados e domingos. E se vos acontecer o mesmo que senti, vale o esforço.
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Nas nuvens não se rasuram palavras, as frases são atmosféricas e transformam-se. Não há permanência de forma.
As nuvens dizem a vida e eu acredito que escrevem o que está no início da chuva. Na incontornável dureza de ser delicado em cada gota.
Conter o princípio e precipitar o ir sendo,
porque ninguém sabe quando vai chover.
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Crianças a brincar com fisgas, atordoam-se, sem se perderem. “we got almost lost”.
É interessante como a alegria é sempre condicionada e circunstâncial; excesso de sol.
Interessante a coreografia da caça que me faz lembrar o filme Mouchette.
Bonito o tempo e a expressão dos corpos e de todo o paraíso natural,
mas habitado nos papéis sociais.
Ninguém está liberto. Nem a Sra. que prefere sonhar o domingo na cama.
A diferença maior é que amar não é só jogo de caça, onde o pardal exibe o peito para ser atingido pelo caçador que se acha mais sedutor do que seduzido.
Encontrar a dor pode ser o preço da vontade de descobrir o outro e o próprio.
Mas há mais do que papéis e protagonismo, este é apenas um tempo de começar. Amar é outra coisa que não se cinge ao desejo pueril. Nem os Senhores se apropriam, nem as Senhoras estão disponíveis.
Dar ao outro o que é mais do que rendição ou subjugação é possível, quando cessa a licença de caça e existe vontade de ser mais do que desejo na primeira pessoa
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Existe uma música que sempre esteve presente. Um lugar geogramático onde as palavras dizem profundamente o que nos escapa quando apenas respiramos. O som da grafite parece uma conversa apressada à medida que hesito ou avanço nas nas palavras escritas. O meu coração não se parte é inquebrável, o meu coração morre e renasce porque continua. Mas doi em cada parte que morre e tornou-se habitual doer e eu fico por enquanto viva. Verão de 2008, apanhei do chão um pardal pequeno, alimentei-o durante dois dias. Ontem parecia mais forte, hoje às 6 da manhã estava cheio de vida. A vida é vermelha e laranja, tem veios escuros e sobretudo canta a mesma música do ritmo de respirar que tudo o que existe vivo partilha. Mais uma vez, sem saber despedi-me da vida. Tive-o nas mãos que tenho quase sempre vazias. Ele aconchegou-se, entregou-se ao lugar quente e húmido que é outra caracteristica da vida. Mas também neste lugar de calor e água que cada um tem enquanto ser vivo, sabe-se que tem lugar a morte e que viver é quase a doença mortal por excelência. O pequeno pardal morreu sózinho, num pano às riscas, sob o calor de uma lâmpada. Antes, às 6 da manhã, ainda os dois vivos, trocámos pensamentos e eu admirei mais uma vez, esta presença extraordinária da força ritmada que nos dá a vida. Olhei e senti-lhe o corpo. Pensei tão dentro de mim que foi como um acto religioso em nome da vida e da morte. Hoje já não existe o pardal e eu ainda sobrevivi. Ainda não o enterrei, fá-lo-ei amanhã, domingo, talvez bem cedo quando a luz não doi nem queima porque assim era o seu corpo frágil, despido, atravessado da mesma matéria das minhas mãos. Hoje a minha mão direita tem a forma de um ninho vazio.
17.30 29 de dezembro de 2011
Em dias de Inverno, como este, de céu azul.
Atravessando a alameda de plátanos,
as árvores estão cheias de pássaros que enchem com convicção o ar.
E o nosso corpo existe calado entre o restolhar das folhas que se pisam ou empurram.
É certo que o som irrequieto, tolda-nos.
Não há acesso às nuvens, só à gravidade do chão.
O tempo existe porque o coração vive
e as árvores, inesperadamente cantam.
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Seguem dois links para o que penso deveria ser divulgado nas escolas de Arte e para o público em geral.
.http://www.youtube.com/watch?v=uVH5vl4NuO8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=DA4I6Q0x60s&feature=youtube_gdata_player
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O verdadeiro chão
Quando eu era novo todo o espaço parecia a idade do mundo,
A sombra das árvores aparecia e coincidia, partilhava o tempo,
não sabia que estava combinado um foco variável de luz.
As árvores estavam sempre a pensar em flores
e eu não sabia nada acerca da consequência dos frutos.
As àrvores quando dão flor sabem viver
e os frutos apenas são eles próprios.
Josef Almeida ( poeta e tradutor)
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Às vezes penso que mais vale estar calada, mas se nuns casos faz sentido noutros parece-me que é mais para me proteger. Pelos vistos esta é uma das vezes que arrisco a sinceridade não por desempenho opinativo mas porque este trabalho ( de Miguel Branco) no pavilhão branco do Museu da Cidade me deu força para acreditar ainda na Arte. Mesmo que através dela tenha ficado a consciência de como o artefacto é questionado enquanto supérfluo. A representação dos monges como contentores/corpo; obra trabalhada, olaria transformada para receber o que não se representa senão pelo lugar que pode conter o invisível que de outro modo não se poderia evocar. Talvez por isso o pedinte em barro, condição dos corpos que ao viver sabem da morte e partilham o mesmo chão; depois o bronze que guarda o registo segundo uma técnica, uma coisa produzida por um certo saber que une arte e ciência ( um certo saber técnico que permite a alquimia possível), tal como a impressão das borboletas. O enquadramento da aparente ausência, por falta de massa física, cria a presença do que as conchas das mãos fazem ao substituir as taças. Este para mim torna-se o ponto mais difícil de dizer, porque se as mãos se bastam, são as mesmas que moldam. Para mim é uma questão fundamental: tudo pode ser visto como intervenção, viver ocupa espaço, mas no que acho que se eleva e que para isso é tocado e alterado, ou melhor continuado no seu essencial, tem uma escolha ou é escolhido para o fazer, aí ainda me parece ser o valer a pena, dar a reconhecer aos outros, o que não nos pertence mas que tocamos ao sentir a existência. A extraordinária beleza da simetria das borboletas, nesta condição que pelos olhos se alimenta, integra o corpo; mas é na contemplação da sua representação (não a borboleta esvoaçante ou alfinetada em colecção, mas tranformada sem perder a referência reconhecível do ser vivo) que torna claro que apesar da carne definhar, o espaço interior guarda, revela, e pode perpetuar-se como um som.
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Quando as casas vão abaixo, fica o respeito da memória ocupada pelo espaço vazio. A ausência flutua contra todas as regras fisicas. As paredes ligadas ao prédio do lado ainda se mantêm, guardam a cor numa quadricula, do que foi a sala, o quarto, a casa de banho, a cozinha, o hall de entrada se for esse o caso da construção. Mas é impressionante o que fica na parede. Pinturas de espaços agora confinados ao plano; como se fossem pinturas à parede que nem outra coisa na vida tivessem contido. Outro ponto importante é que se perde a divisão, apenas a cor diz onde foi o lugar que agora está prensado na única dimensão, cada parede é um quarto porque as outras três caíram. Não há chão e perdeu-se o tecto, fica uma pintura amputada que só por si faz o carrego das paredes que se foram. Lá em baixo crescem ervas, plantas que ninguém semeou, o que sempre esteve presente no alicerce anterior.
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Se os dias de chuva parecem tristes,
deviamos pensar no prazer das árvores
As árvores gostam da chuva.
Depois do calor sentem alívio.
Quando chove é como se mil dedos finalmente lhes coçassem as costas.





