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Não queria ter o que me podem cobiçar, queria apenas ter a casa cheia de objectos invisíveis e nas paredes quadros por pintar.
De dia para dia tudo o que tenho partido ou perdido ganha a escala exacta da ausência.
Permaneço com alguma estupidez, mas embora não me reconforte esta consciência, o meu atraso, faz-me ser lenta e dá-me tempo .
O que não sei se virei a saber, seja lá em que momento iluminado possa ainda aceder,
é a doença da lesma que se arrasta, mesmo que esteja dentro de um comboio.
É nas lagoas estagnadas dos desenhos
que nunca soube ver
que vai ficando o tempo surpreendido.
Não sei se ler para dentro consegue ser a escrita das palavras.
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Este livro é para construir e partilhar, no que esperamos seja uma experiência com tesoura e cola, mas também com tempo e boa disposição. Uma espécie de trabalho amoroso porque implica dedicação e também registo da participação de quem se aventure a construir a três dimensões o que vos chega apenas planificado. O projecto é mesmo para descobrir e partilhar no quarto de jade está à venda na loja a €7.50.
O que está na raíz deste Amor Perfeito é a passagem de livro a objecto tridimensional e também querer falar de poesia. O pequeno poema repete uma frase porque o movimento dos cubos assim lhe diz com simplicidade.
É um movimento que espero nos encontre e sobretudo vos encontre com quem quiserem partilhar esta transformação.
Pelas imperfeições ocasionais das colagens e dos recortes, mas sobretudo pelo que ainda pode ser tido como desejo de querer partilhar, aqui vai o amor perfeito.
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Devemos ou não desconfiar se subimos os degraus usando sempre a mesma perna.
Que relação tem o livre arbítrio com tropeçar sempre na mesma pedra.
Se os dias de céu azul nos são impostos, quais são as verdadeiras intenções dos amarelos.
Os ratos já não roem rolhas russas,
os patos ficam junto de cegonhas.
Mas também as gaivotas estudiosas,
que enchem vagamente o relvado,
pasmam frente aos estádios do ensino,
da famosa feitoria dos doutores.
Há um grupo que acredita nos degraus que existem,
perpétuado por e para estátuas gregas.
Porque o impulso da vontade vertical anseia pelo antídoto,
na dúvida metódica, desenha-se o início do degrau,
e esquina horizontal e limitado, na eterna condição de ruminar.
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Estranhava a cor dos azulejos.
Muitos eram lejos em vez de azul
e eram tácteis em vez de serem.
Sugavam-me e transpiravam um tom de som,
de confissões de cerâmica e lembrança de barro.
Vozes antigas, pessoas, tempo.
Obituário circunscrito.
Território quadrado e delimitado.
A travessa é a luz branca que sobressai e fica.
O mundo já sempre foi : diz a parede inteira
mas não é uma só voz
é um coro.
Em que se tiveres atenção, há em cada um uma voz
que geme amarelo poroso de terra e invenção santificada de azul.
(Os verdes,
imitam os verdes)
Nas paredes não se grita, nem sequer o que a tinta lhes escreve por cima.
Morremos sózinhos mas fazemos um padrão.
E depois perceber que não são pessoas que escrevem poemas de cabeça que vão salvar o mundo.
O som nas árvores de folha perene
está preso sem constrangimento.
Ficam os pássaros e os gatos ao sol
que oscilam no que consigo,
na sombra branca da roupa lavada.
Letra capitular
lembra a geografia vertical dum mapa.
Tinha pena,
verdadeira e sentida pena,
quando na escola
olhava o Portugal Continental
suspenso por um fio à parede.
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A Prof. Maria Willing Veríssimo escreveu-me e não tendo outra forma de publicar o que de certo modo é uma carta aberta a quem estiver interessado na divulgação da essência do que está na base do Project Fountain, passo a transcrever neste blog parte da carta:
(…) Gostaria de tornar público em Portugal o meu agrado por este projecto que faria uma ponte entre duas linguas diferentes atravessando o Atlântico, que não acontecendo através do extinto IPDA, pôde ser parcialmente editado a acompanhar a exposição A Fonte das Palavras.
Lamento que em Portugal os espaços ligados à divulgação cultural fechem.
A meu ver, e na experiência que tenho, mesmo que seja ligada à Universidade, a cultura não existe para dar lucro igual ao investimento, quando se fala de dinheiro.O que resulta do gesto de um mecenato por vezes generoso, é o ainda maior retorno de facultar acesso a uma consciência.
Em nome das pessoas carenciadas esta é uma acção que pode ser transfomadora, porque ao se dar faz pensar, faz eventualmente querer saber mais. Faz avançar individualmente e conjuntamente pessoas. O que complementa a perspectiva da bolsa que oscila tendenciosamente, deixando-se comprar e vender.
Mais acrescento, e mais uma vez relembro que o projecto parte de uma Universidade. Que para muitos pode ser tida como uma incubadora de ideias e ou como um aviário de empregos para perpétuar o mundo como o conhecemos.
O que me interessou neste projecto foi tornar possível que alguém ainda possa trabalhar a sua vocação, sem ter de se subjugar a poderes políticos para fazer o seu trabalho.
Não existem aqui critérios elitistas de classificação. Aliás contrariamos o “conhecimento” no que ele tem de mais arruinador. Evitámos as citações e a desresponsabilização de se descansar no possível degree de cada participante.
Se isto é política, sinceramente acho que está acima do funcionalismo político.
Tentámos dar oportunidades à transformação por meio de novas visões e ideias, dar oportunidade à existência do momento de falhar. Se o próprio o achar, e sobretudo se nesse erro aprendermos com isso, ou não.
Aqui em Boston, quando lançámos o número que reúne todos os poemas deste projecto, às entidades que nos apoiaram, juntaram-se outras, de catering, para se fazer uma festa que segundo o Mayer e algum staff nos fizeram crer seria do nosso inteiro interesse pois chamaria outro público. Uma festa, segundo eles, que promoveria, sem igual, os poetas.
Optei por dispensar a linguiça, o pastel de nata e as bebidas espirituosas.
Não tendo nada contra a Feira Popular, pareceu-me integro apenas ficar com as pessoas verdadeiramente interessadas.
Não se tratava de uma festa, mas sim de uma publicação séria, como todos os trabalhos o deveriam ser.
Espero que em Portugal tenha corrido de diferente modo.
Sincerely,
Maria Willing Veríssimo







