Maria João Worm


próximo trabalho
27 Janeiro 2010, 11:52 pm
Arquivado em: Uncategorized

 

Os inadaptados.

É um projecto com algum tempo de vida. Provávelmente esteve guardado como ideia à espera de 2010 para se tornar imagem e texto, através do CPS. Quando o pensei não consegui desenhá-lo, e provávelmente faltava-me o tempo que por vezes é preciso para que o que intuimos tome forma. Assim o tempo confirmou a suspeita de ser preciso tempo para ver melhor o que queria dizer. Não é pacífico o resultado desta etapa de reencontro com uma ideia que finalmente encontrou espaço e expressão gráfica. Estes inadaptados de certo modo aceitam a sua condição de excluídos, mas a sua integridade parece insuficiente para que possam apenas ser e bastarem-se assim. Não é o facto de o mundo os rejeitar é a prória consciência trágica da diferença que lhes designa a necessidade de haver uma justificação para a sua existência. Deveriam apenas existir e isso bastar, não deveria sequer existir este registo das suas histórias. Mas é nesse desacerto que vive o que não se adapta. 

Este trabalho existe acompanhado de mais 5 gravuras, com tiragem de 75 exemplares cada, 50 X 36 cm; as outras são com personagens que são exactamente “os inadaptados”. Uma tartaruga, um pirilampo, uma abelha rainha, um coelho ( imagem em baixo) e uma pulga. 

Era uma vez um coelho enrolador de nuvens, sem dúvida uma profissão pouco considerada. Mas nem todos podem ambicionar ter uma horta de cenouras, dizia ele com convicção.



Poesia onde a beleza inevitável ainda se senta,
18 Dezembro 2009, 1:32 am
Arquivado em: Uncategorized

Fui à Faculdade de Letras e vi uma cadeira desconjuntada que alguém jovem e ainda tomado por alguma ideia de bondade, encostou a um corrimão de vão de escada. A cadeira exausta parece escorregar sem força nas pernas. Bem sei que na Universidade os alunos normalmente querem fazer as cadeiras em que estão inscritos. Esta cadeira abandonada sem cuidados paleativos que não o encosto à parede da Instituição, não se revolta, está apenas reclinada. Contraria a métrica dos ladrilhos e desaba para a morte com aparente elegância.



A URNA DA BALEIA e 4 ILUSTRAÇÕES DO LIVRO DE CONTOS ATÉ NÓS
7 Novembro 2009, 1:56 am
Arquivado em: Uncategorized
a_urna_da_baleia

A urna da baleia, linogravura em papel de seda 29,5 X 40 cm ; tiragem 8

 Esta gravura foi feita a partir de espuma do mar e madeira branca, como ossos limpos. Foi feita sobre um esboço e quis registá-lo assim. Tem que ver com o que na praia chega vindo do mar no Inverno. Está à venda na loja do site  por 110 € com portes incluídos. A tiragem é apenas de 8 e foi feita com a técnica de matriz perdida. Ou seja, mesmo querendo não há mais.

As gravuras que se seguem pertencem a um livro de belíssimos contos da escritora Dulce Maria Cardoso, o livro chegou a ser editado mas saiu do mercado; será reeditado mas sem as ilustrações. Estas ilustrações estão igualmente à venda na loja do site por 100€ cada,  com portes incluídos.

varanda, linogravura em papel de seda 30,5 x 21,5 cm

 

Pânico, linogravura em papel de seda, 30,5 x 21,5

Uma estrada chamada tradição, linogravura em papel de seda, 30,5 x 21,5 cm

Dois homens, linogravura em papel de seda, 30,5 x 21,5 cm

 

 

 

 

 

 



Plantas dos pés versus projectos
25 Outubro 2009, 6:23 pm
Arquivado em: Uncategorized

 

 

envasadosOs filmes, os livros, a música, a poesia,  o desejo de conversar, pelo prazer de descobrir. A postura que se tem em relação ao que se quer que aconteça connosco,  dentro do que parece sempre estar, antes e depois de cada um de nós. Quero muito que a cabeça adormeça, mas o maior desejo é que o cansaço de querer encontre um lugar. Vejo ao meu lado como se ocupa o tempo. E eu? Sim,  ocupo também o tempo. Contradigo-me quase sempre. E quero tanto ser salva por palavras, por imagens. Encontrar. Eis o que acho que salva o dia de todos. Dar de caras e corações. Acho que não é preguiça mas o anseio é encontrar. No meu meu caso não tem de obrigatóriamente que ver com o esforço da procura. Outro dia falava de plantas dos pés. Sim,  as plantas dos pés, esse lugar que ainda sendo nosso,  pisamos e ao mesmo tempo serve de ligação com o chão. De tal modo sensível que o protegemos com solas e sapatos. E depois é realmente quando nos esquecemos da nossa presença que os pés são mais plantas; de resto o que nos é proposto são projectos. De momento o corpo não me dói, a aparelhagem que se resolve dentro de mim e que vai estando funcional e me permite dar largas à cabeça e ficar a pensaricar nisto e naquilo, sem dor de processo, vai simplesmente sendo.  Não me dói a máquina, embora só saber dela me faça ter dó. Uma música primária sem sustenidos ou bemóis. Que dificuldade é esta de se ter presente a possível e desejável vida sem a dor física. Esta ingratidão desconcerta. Deveria saber que hoje o que não sei é possível que seja a circunstância de haver felicidade. Ou alegria, já que cabeças melhores do que a minha as distinguem.



VISÃO
11 Outubro 2009, 5:51 pm
Arquivado em: Uncategorized

visao

Esta pintura é sobre a visão. Encontrei-a na forma de fotografia, nos arrumos que volta e meia se fazem. Já não a tenho porque foi feita sobre papel de alcatrão e amachucou-se num dos tais arrumos. O papel de alcatrão também desapareceu do mercado.



DE QUEM NOS PERCEBA
25 Setembro 2009, 9:25 pm
Arquivado em: Uncategorized

A propósito de andarmos à procura de quem nos perceba. De quem demore o tempo e ao mesmo tempo retenha todo as irregularidades e substâncias do que escrevemos. Todos os lados que nós próprios quando fazemos apenas sabemos da presença. Querer quem escreva a acta desta reunião entre o ser e fazer, alguém tão perspicaz e hábil que consiga coser a sombra ao Peter Pan e que o faça sem utilizar a agulha ou as mãos. Alguém que o faça por um meio que está por dentro, a um tempo quase irreconhecível e por outro tão certeiro que não restam dúvidas de ser a imagem reflectida mais nitida do que a imagem que se dá ao reflexo. Ansear por uma alma maior do que gémea um igual mas superior, maior e mais profundo capaz de resolver os enigmas mais intrincados, mesmo que não os devolva desencriptados. Alguém que guarde a memória total e essencial do que escapa em cada pensamento e que o faça por amor de tal forma empático que nos torne nos narcisos mais narcisos. E por haver esta ligação, alguém que não pede mais do que se dar ao reflexo porque nele próprio se encontra. É isto? Espero que não.



NO FIM DE AGOSTO
23 Setembro 2009, 3:01 pm
Arquivado em: Uncategorized

o meu avô 1



As asas são o som que se aproxima do eixo donde tudo permanece edificado
13 Agosto 2009, 11:07 pm
Arquivado em: Uncategorized

Há medida que as férias se vão sucedendo, junta-se o tempo. Como quando se visitam castelos. Ruínas incompletas que pedem que se lhes acrescente a vida que temos. Histórias que habitamos com curiosidade enquanto a nossa  toma forma. Com mais idade, as muralhas tomam uma única forma que resiste. As flores que nascem nos veios são o presente que substitui a necessidade de fotografar. A densidade de estar e ser ao mesmo tempo, como se  ingleses  fossemos, deixa de lado o desejo de ficar suspenso, para um tempo que há-de vir. Visitar lugares em ruínas, templos traçados onde gravita um hálito central que agora se descobre que é azedo, apenas descreve uma circunferência fria de moscas que perfuram o espaço.

Depois existem os átrios, intervalos de construção. Parecem abandonados à espera, sem outro desejo que não o das flores que soubermos ver. Neles há uma hora que apenas existe nas sombras a quarenta e cinco graus. As esquinas definem-se porque os pátios se enchem de luz. Nessa hora coincidente, unem-se os pontos que construiram os templos. Segundo o gesto único que desenha no tempo a verdadeira geometria do amor.



UM DESENHO
4 Julho 2009, 7:52 pm
Arquivado em: Uncategorized

peixes-blog

Vi  peixes. Pode parecer tolo mas vi peixes. Num lago , num jardim. O que quero muito dizer é que vi . Vi intensamente.

 E aconteceu-me o que tenho perante o céu à noite. Vejo tamanha beleza que apenas consigo vislumbrar. A minha capacidade de abarcar sabe que é menor do que o que tem perante os olhos. Contudo o vislumbre de olhos fixos que mais parece pelo canto dos olhos é uma oração em forma de verso que discorre através de mim. É tão maior do que alguma vez poderei ser que eu não consigo olhar e ver. Talvez seja a aproximação possível à face de Deus. E de facto não é possível vê-la. Não porque ela se esconda, ou lhe dê uma mania de grandiosidade. Ela apresenta-se simples. O olhar é que não está à altura, o meu olhar não consegue ver a intensidade da beleza de Deus. Nem sequer é trágico é apenas isto.

Chamo Deus ao que na Natureza se apresenta. Integridade, raíz.



Não penso que se nasça iludido ou ignorante do que nos é próprio
18 Junho 2009, 10:05 pm
Arquivado em: Uncategorized
o dinossauro com que começei... a fazer cartoon

o dinossauro com que começei... a fazer cartoon

(continua) Continua o escrever fora do que me propus fazer. Hoje acordei com este pensamento que poderia perfeitamente ficar só para mim. De qualquer modo existe esta vontade de dizer. Não que se cumpra uma missão, nada disso. Apenas o movimento, o que faz com que se emprestem livros e que nos deixa assim, entre o princípe das mãos vazias e uma parábola a escolher. Provávelmente tem moral. Já nem sei se felizmente ou o contrário.

Dei comigo a pensar na distorção, nas boas intenções, no enredo da educação. Escrevo sem saber exactamente onde isto vai parar. Nem se trata de arrojo, poucas pessoas lerão isto mas insisto. Porquê? Não sei mas suspeito de uma grande vontade de ouvir quem diga ou escreva o que está para além de mim até o saber. Sem dúvida que o que acabo de escrever pode ser interpretado como  contradição com o belo título deste post. Mas penso que uma coisa é ser individualmente, outra coisa é passar à comunicação. Nascemos desinteressadamente do outro, precisamos dele para subsistir. Se nos forem facultadas as acções que nos permitem a sobrevivência, logo aí nos destacamos. Os que choram mais ou menos. Os que cedo aprendem o jogo do poder do afecto, ou os que pelo contrário prolongam a dormência de se bastarem a uma existência, sem  mais.

o mesmo dinossauro com que começei, nos anos 86

o mesmo dinossauro com que começei, nos anos 86