Maria João Worm


A LINGUAGEM DAS FLORES
30 Maio 2018, 8:49 pm
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a_linguagem_das_flores

 

Sentado a meio da escadaria, ao lado de um líquen amarelado e de uma pequena flor azul, abre e fecha os olhos.

Contrai a cara quando um mosquito o toca de passagem. Reage estremecendo. Depois dedica-se de novo ao pensamento que por dentro surge como um insecto a esvoaçar na sala com a precisão de um desenho que pestaneja sincopado.

-Talvez eu não tenha conseguido conversar com os vivos.

De cada vez que me lembro, recordo uma ou duas ocasiões em que o contacto foi directo. De resto houve sempre muitos encontros à volta de mesas; jantares, vinho, cervejas e fumo.

Ofereceram-me há muitos anos uma roseira de flores cheias, pétalas dobradas, cor de veludo macio de vermelho profundo até rosa escuro.

As flores são anunciadas por folhas avermelhadas, que a seu tempo se tornarão verdes, logo depois de empurrarem o tom carmesim até ao lugar onde o botão se enforma.

Estas rosas de mão cheia são tão belas que não sei descrevê-las, embora saiba o toque e lhes sinta o cheiro quente e único.

Gosto de ter apenas este pé de roseira. Assim, para cada flor, tenho a devida atenção podendo apreciá-la.

Quando o casal que me ofereceu a roseira morreu,  no intervalo de poucas semanas, também a estaca central da roseira secou.

No ano seguinte duas hastes fortes nasceram e hoje uma delas encimada por uma rosa aberta  olha em frente e faz companhia a um botão que aponta o céu com firmeza.

Agora, enquanto a descontração das folhas ao vento acena a quem passa, ouço a zunir por dentro que em breve se desfolharão as flores.

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Um incómodo, uma pergunta
4 Abril 2018, 11:46 pm
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arvores

Aquela que espero que me aconteça.

A tal a que me possa permitir dar o que por si mesma me inclua, e maior do que eu consigo ater. Espero por ela. Desenvolvo o verbo insoniar. A assistir ao tempo que passa, sem dormir, pensando que vou de viagem numa camioneta, junto à janela (tenho sorte).

Na parede as sombras ondulam pois o estore não fecha totalmente a passagem da luz, e se tenho roupa pendurada lá fora  e se houver nesse dia vento, escrevem-se poemas na parede a que assisto. Escreve-se e apaga-se, perante os olhos, e  apresenta-se uma parte do que o movimento é capaz. E é por vezes belo e apesar de tudo nunca, porque varia em pequenas subtilezas que quem pinta sabe que é mesmo assim… fica o olhar mais preciso de se ser capaz de distinguir tonalidades.

Quando estou assim, não tenho um caderno por perto, e então aparecem palavras que dizem ser de muita importância… Elas sabem que o são assim por não haver um caderno. E eu não me levanto para as escrever. Porque não lhes quero estragar o valor da importância e porque já o fiz de outras vezes e elas ficam registadas com outa voz. À noite deixem-se as palavras ficarem sábias, são-no em si e eu sei, elas sabem.

Poemas maravilhosos de árvores altas a dizerem que tudo fica mais extremo.

Ainda não foi desta vez.

 

 

 



O presépio
7 Dezembro 2017, 11:48 pm
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natal_2017

Este ano, no presépio, a casa ao fundo tem no pequeno quarto uma criança sentada numa cadeira a escrever em folhas soltas à luz de um candeeiro que já foi de uma avó. Rangem madeiras do soalho, e fica imóvel, esta alma das almas todas, que sem ela saber apresenta, na sua ainda breve passagem de existir. Está muito frio e a morte está sentada ao seu lado mas aos pés da cama. Não existem mais cadeiras e a morte gosta ou habituou-se aos colchões e ao cheiro dos lençóis. A morte gosta de se sentar perto das crianças, pode ficar a assistir sem a obrigação de intervir e agrada-lhe a companhia dos que não têm medo dela.



A oficina do escultor
14 Novembro 2017, 9:59 pm
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oficina_do_escultor

Há uma oficina que fica dentro de uma casa de pedra com uma porta de madeira que está quase sempre aberta. É, para quem lá dentro trabalha, uma forma de emoldurar a paisagem, e uma passagem de um espaço para o outro.

O escultor saiu, as peças ficaram no lugar onde ele as tocou, onde lhes deu a forma conforme o seu gesto. São de barro, como os corpos. Movimentam-se no devagar do pó. Parece tudo demasiado silencioso, mas elas conversam baixinho.

Agradecem a canção que os dedos lhes inscreveram e guardam o som do sopro.

 

 



história
31 Outubro 2017, 12:14 am
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lugar

As palavras antes de se fixarem nos livros eram nómadas.

Ouvir e dizer eram as vezes de ler.

Estavam inscritas numa direcção e dois sentidos.

A memória interna apreendia a coincidência com a eterna.

O tempo, a consciência de estar vivo agora, fazia do corpo o instrumento aberto,

onde a música, transversal à existência, seguia perpétua,

na voz que é em cada ser.

Fixaram-se as palavras e a humanidade.

Para conforto,

construíram-se micro-mundos em quintais,

desviaram-se rios, cruzaram-se e desenraízaram-se  espécies,

violou-se a sabedoria.

E assim tornou-se mais claro que ela existia.

Mas ao violentá-la e ao fazer o corte de a aceitar tal como é,

ela que habitava o centro de cada ser, fugiu para o céu.

Mas seguiu-se cegamente o valor da delimitação,

pela posse da breve assinatura de uma vida.

Em vez de se procurar o alimento,

achou-se o direito de trazer para si,

o que convinha ao desejo do momento.

A Humanidade fez da Vida Una, a violência de se estilhaçar em indivíduos,

capazes de se matarem e matar, para adquirirem o poder do monólogo.

E assim escrevem-se livros,

à procura da coincidência que se perdeu.

E apenas ficou mais definido,

o espaço onde se deve enterrar os mortos.

 



Água
16 Agosto 2017, 11:53 pm
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paisagem

Mina dura, cristalina

Montanha do eu antes de mim

Desce!

Trina a árvore,

Corta clara a luz no chão.

Já não espero.

-Vale geograficamente ser feliz?

Onde as flores de cores tão certas

Passam por tudo o que fiz?

Vale o desenho de geograficamente ser

O ter sido o que é agora?

Alva flor de cor tão certa

Mata-me a seda do vulgar.

Atempadamente a beleza é a oferta

Do que não me pertenceu.

Resta o fusco, toldo, trombo,

Tralha tímida.

Tristeza do que aprendi.

Volta a tratar: retrata

Limpa com a água usada,

Chá do chão por onde passei.

Na casa vão ficar os quartos minguantes

Sem passar a lua nova.

A minha terra é um observatório

E um lago de águas paradas.

Reconheço o reflexo dos ciclos

Mas não posso devolvê-los.

Aprendi que passatempos duram apenas por si.

Sou do tempo,

É em mim que ele torna visível a forma da sua existência.

Sou alimento que se come e é comido.

Acho as palavras que amo

Enquanto se segue

O veio afluente do rio.

Canta a água a liberdade

De seguir por entre as margens.

E tudo é motivo de paragem

E segue-se mesmo assim.

Salgando-se a água doce.

 

 



Emideo Sagaz um homem capaz de permanecer indiferente com Dona Jervázea, a independente. Da Póvoa da Várzea ( naturalmente ).
31 Maio 2017, 8:36 pm
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Caderno